domingo, 24 de julho de 2011

Romance de Domingo

Aventuras do Menino Danta e seu amigo Guerra
  Por William Guerra*
 
CAPÍTULO XIII

         Dona Nhá, mãe de Guerra, disse-lhe que amanhã seu irmão João Batista estaria de volta. Chegaria pela tarde, vindo de trem até Caraúbas, dali Jacó já o aguardava com o seu cavalo Pedrês.

         Guerra nada disse. Jantou um prato de arroz de leite com carne assada. Socorro lhe ofereceu café com pão. Disse que não. Tomou água dormida no pote. Saiu para dentro da noite, foi encontrar os amigos de brinquedo pelas ruas semi-escuras de Verdejante.
        
           Lá já se encontravam Danta e Wilson, e os demais colegas de folguedos. Ao avistá-lo, Dante aproximou-se, perguntar do que deveriam brincar, hoje. Era sempre assim, Guerra fazia o papel de chefe das brincadeiras que deveriam acontecer. Ele quem escolhia qual a peripécia a ser colocada em prática. Todos obedeciam. O menino mais sagaz, mais sabido da tropa.

         A garotada parece até que já esqueceu do triste acontecimento que foi a invasão dos cangaceiros. A morte de Rodrigues de Adélia. Para os meninos, aquilo já fazia tanto tempo que não se lembravam mesmo. O negócio deles era brincar, alegria e a conquista do mundo se possível. Essas coisas difíceis deixa que os adultos resolvam.

         Danta chega mais perto do amigo, nota que Guerra está macambúzio, cabeça baixa. Capta a mensagem: algo o está perturbando. Indaga:

         - Que é Guerra? Que aconteceu? Parece que você está no mundo da lua?

         Guerra não responde. Apenas fala que a brincadeira é de esconde-esconde e que o último a chegar ao tronco do pé-de-figo que fica em frente à sua casa, vai ser a barata e tem que contar até dez, enquanto os demais iriam se esconder. Todos obedeceram. Danta ficou com a pulga detrás da orelha, pois o Guerra não estava à vontade.

         A algazarra tem início. Saem correndo para se esconderem mo muro da Legião; por trás do calçadão da casa de Luis Leite; detrás da preguiçosa de Quinca de Lindolfo, eternamente armada na calçada de tijolos; outros vão para o beco João de Brito; para dentro da casa de Adrião Bezerra... E assim, cada um tem que ficar o mais escondido possível. Aquele que ficou para ir revelar pelo menos um, ao avistar o primeiro escondido passa para o lado dos que têm que se esconder. O achado permanece para ir descobrir a todos novamente. E assim sucessivamente.

         Wilson foi o próximo descoberto. Agora teria que ir procurar os amigos. Ficou recostado no pé-de-figo, cabeça baixa, contando 1, 2, 3... até 10, aí saia correndo em busca de algum dos escondidos.

         O brinquedo não empolgou Guerra. Parou, foi até uma calçada e sentou. Danta veio ter com o amigo. Wilson chega correndo gritando alto:

         - Peguei! É Danta quem vai procurar, agora!

         Danta avisa que ele e Guerra estão fora da brincadeira.

         - Vixe! E por quê?

         Data respondeu por ele e por Guerra:

         - Porque sim, ora!

         Wilson, sentando desconsolado, aderiu à preguiça:

         - Sendo assim, eu também estou fora do esconde-esconde.

         Os demais, vendo que não havia futuro no brinquedo, vieram todos e ficaram por ali pilheriando, enrolando o tempo aguardando que os pais os chamassem para dormir. Mas mesmo assim, a atenção voltava-se toda para Guerra. O que ele tinha? Perguntavam-se os amigos, sem demonstrarem que queriam saber de alguma coisa Danta, o mais chegado, teve a petulância de perguntar:

         - Guerra o que está acontecendo?

         O filho de Carrinho e dona Nhá levantou-se, saiu apressado, rumo ao patamar da igreja. A turba o seguiu. Tinha mais a ver com um chefe de bandidos mirins: Guerra na frente, a cambada atrás, todos prontos para quaisquer empreitadas. Deram a volta no Cruzeiro, subiram o patamar, Guerra foi sentar no último batente, e os outros, também.
        
         O centro das atenções, o líder, aquele que dava ordens, Guerra, arriou para trás, ficou deitado, papo para o ar. Lá em cima, bem longe, brilhavam as estrelas. Milhões delas. Piscavam assim como uma garota pisca o olho para o namorado. Não tinha uma lua. Ela sairia mais tarde para acompanhar os enamorados em românticas serenatas.

         Wilson imitou Guerra, deitou. Os outros igualmente ficaram de papo para o ar. Danta continuou sentado, entortando os dedos para trás, estralando as juntas, demonstrando nervosismo. Sempre foi nervoso, Danta. Ficava preocupado com qualquer coisa. Até aquele repentino silêncio do amigo inseparável. Teria sido ele, Danta, o motivo daquele estado de isolado? Alheio aos comentários dos demais companheiros? Pensava Danta lá com os seus botões. Não agüentando a angústia, tinha que irritar o amigo, não havia outra saída:

         - E aí Guerra, vai dizer ou não o que está acontecendo?

         Guerra impassível. Na dele. Contemplando o firmamento belo, misterioso e sem fim. Nada lhe tirava a atenção daquele mundo de luzes na longitude do Universo. Como era intrigante os fenômenos naturais. Guerra pensava: Como elas se sustentam? Seriam atadas a algum cordão, como fazem com as bandeirolas nas barras de Nossa Senhora da Conceição?

         Enquanto isso os seus amigos de peripécias ficavam sem saber o que dizer, mesmo olhando para cima, nada pensavam, viam igualmente as estrelas, mas não teorizavam uma vez que queriam saber o que se passava com ele, o menino prioritário, para ficar assim, repentinamente, tão silencioso.

         O susto foi intenso. Ninguém esperava. Absortos e paralisados, todos, de uma só vez, como um bando de nhambus arribam de um pombal depois do primeiro tiro do caçador, saíram em disparada. Guerra levantou de um salto e gritou que ouvira umas pisadas dentro da igreja. Parecia alma penada.

         A meninada ficou assombrada. Lá embaixo, depois da praça, ofegantes, olhos arregalados, falando com dificuldade, eles perguntavam:

         - Que foi aquilo?

         - Vocês ouviram?

         - Foi mesmo uma alma que bateu lá por dentro?

         - E alma bate nas coisas?

         - Elas andam fazendo barulho?

         Guerra ria. Os outros amedrontados, ele ria à bandeira desfraldada. Ria sem parar. Botava lágrimas de tanto rir. Os demais foram se acostumando... Olhando o amigo rindo... Voltando ao senso normal. Começaram a rir também. Danta era o mais serelepe. Agora queria distância do patamar da igreja, principalmente à noite. Mas ficou intrigado.

         - Fala guerra, você disse que ouviu passos ou barulho dentro da igreja. Por que está achando tanta graça?

         Guerra foi parando bem devagar. Recompondo-se de tanta alegria, enquanto os outros ainda sentiam um pouco de pavor. Até que, pausadamente, explicou aos amigos:

         - Eu vi quando seu Manoel Dantas, o pai de Danta, entrou na igreja por uma porta lateral. E que, alguma batida lá por dentro, só podia ser ele. Aí eu inventei que fora uma alma.

         Os demais caíram na risada, também. Retardadamente, mas riram para valer. Agora ficavam apontando uns para os outros. Cada qual mostrando qual o que ficara mais assombrado. Quem correra mais. E, ao mesmo tempo, defendiam-se das insinuações. Uns diziam que não tivera medo. Outros confessavam, mas que sabiam que era somente brincadeira de mau gosto do Guerra. E assim iam se justificando, combinando nas afirmações e, sentando-se todos na areia, de frente à Legião, Guerra ordenou que fossem contar estórias de assombração. Danta não gostou da idéia.

         - Ora, você, Guerra, estava tão triste. Como pode agora querer que a gente conta estórias para deixar a gente com mais medo ainda?

         Wilson admirou-se:

         - Vixe! E agora, como é que vou para casa e passar no beco da finada dona Benvinda?

         Os demais nada disseram. Apenas riram do medroso Wilson. Mas Guerra admoestou, botando lenha na fogueira:

         - Você se vire Wilson. Por aquele beco anda uma alma penada de uma velha carcomida.

         O menino ficou com tanto medo, que se achegou mais para o centro da roda de amigos, pensando com isso que o seu medo seria anulado. Mas não foi o que aconteceu. Depois das estórias, Wilson pediu a Guerra e Danta que o acompanhasse pelo menos até perto de sua casa. E assim foi acordado. Quando os tr~es meninos ficaram a uma distância de uns cinqüenta metros da residência de Wilson, deixaram-no, e imediatamente retrocederam correndo. Wilson, feito um Pégaso com assas e tudo, voou para dentro de casa. O medo o consumia.

         Os outros meninos já haviam sumido cada um tomou o rumo de casa. Guerra e Danta ficaram sozinhos no meio da rua. Foram para debaixo do pé-de-figo que se situava em frente à residência de Guerra. Este puxou conversa:

         - Amanhã chega o meu irmão João Batista.

         Danta teve um leve sobressalto. Lembrou da falta de ânimo do amigo até bem pouco tempo. Comentou:

         - Então era isso que o estava deixando arredio. Ou seja, sem querer brincar nem dizer nada?

         - Sim.

         Guerra pegou umas bolinhas, bem miúdas, que caíam da árvore amiga. Sem se preocupar com nada, colocava de uma a uma na boca, mastigava e cuspia longe. Esse gesto fazia-o automaticamente, sem saber o que realmente estava fazendo. Um hábito que adquirira cada vez que ficava horas debaixo do seu preferido pé-de-figo. Sim porque em frente às residências de Verdejantes havia muitas daquelas arvoras que davam uma sombra muito boa. As folhas ficavam sempre verdes. Outras árvores também enfeitavam as poucas ruas da cidade. Timbaúbas gigantes e tamarindos, além de pés-de-cajarana nos quintais.

         Danta continuou o papo:

         - Mas homem, devia ficar alegre com a volta do seu irmão.

         Guerra respondeu:

         - E quem lhe disse que eu não estou?

         - Parece que não...

         Guerra concluiu:

         - É que ele vai me obrigar a aprender a gramática, a fazer conta. Essas coisas que eu não quero.

         Danta nada disse. Ficaram alguns momentos em silêncio. Conversaram sobre os últimos acontecimentos. Repassaram a história do bode Merlim. A astúcia de Guerra em ouvir a cigana dentro da tenda. A invasão dos cangaceiros.

         - E o tal de Vento Solto? Soltaram-no?

         Perguntou Danta, avaliando que Guerra sabia mais sobre o assunto. De fato sabia. Guerra explicou:

         - Vento Solto virou morador do prefeito Lucas Pinto. Não vai mais embora de Verdejante. Vai ficar por aqui trabalhando no terreno Apanha Peixe. Ouvi meu pai falando isso.

         Encontravam-se assim, sem se preocuparem com a vida. Quando ouviram um grito de mulher vindo lá de cima. Era dona Joana chamando Danta para entrar em casa, Manoel Dantas iria fechar a porta.

         - Até amanhã, Guerra.

         - Até amanhã, Danta.

         Combinaram que bem cedo iriam caçar ninho de rolinha. Um banho na lagoa e depois ficariam na entrada da cidade, no mata-burro do alto de Zé Albino, aguardar a chegada do professor João Batista Guerra.

         Carrinho, o pai de Guerra, ainda não estava dormindo. Deitado numa rede listrada, chamou Guerra e mandou que ele sentasse numa das beiradas. Abraçou-o e o beijou na testa. Rio com aquele riso que somente os pais têm para os filhos. Começou a falar para Guerra.

         - Filho, você está grandinho, precisa aprende as lições. Veja o seu irmão, agora o nosso orgulho. Professor. O primeiro professor diplomado de Verdejante. Eu quero o seu bem. Amanhã ou depois nem eu nem sua mãe, nem seu avô Adrião estaremos vivos. E você terá que seguir em frente. Vai quere casar e ter filhos. E quem não tiver estudo não vence na vida.

         Guerra ouviu aquelas palavras do seu pai tão comovidamente, que deitou, colocou a cabeça no seu peito. Ouvia as batidas do seu coração. Carrinho não viu, mas saíram duas lágrimas dos olhos vivos do filho. Guerra chorava sem permitir que o pai o visse chorando. O homem respeitado na cidade como tesourei honesto e dedicado da Prefeitura, passou a mão de leve nos cabelos sujos de terra do filho. Não disse nada, nenhuma reclamação. Apenas riu para si mesmo. Aquela união de amor entre pai e filho, quem os observasse, ficaria comovido também.

         - Sabe Guerra. Eu também fui criança. Menino arredio, briguento... Fiz tudo o que hoje você faz pelas vielas da nossa terra. Meu pai me ensinou a ser uma pessoa boa. E me botou numa escola para eu aprender o A, B, C e aprender para a vida. Não sou rico, sou pobre. Mas ninguém em desmoraliza. Ninguém tem o direito de me atirar uma pedra por alguma coisa errada que venha fazer contra o meu semelhante contra Deus. O mundo ensina o que os nossos pais não podem ensinar. Por isso eu lhe digo, seja como João Batista, seu irmão. Aprende com ele. Estuda que será um grande homem.

         O menino já quase soluçava. Levantou a cabeça, olhou o pai nos olhos. Carrinho enxugou seu rosto tostado pelo sol. Guerra conseguiu falar com a voz embargada:

         - Pai, eu amo o senhor e a minha mãe ao meu irmão. Eu não queria aprender essas coisas dos livros. Eu quero ser uma pessoa do mato, caçar, viver livre que nem a Juriti, como o Pintassilgo que voa livre e canta, sem que ninguém tenha ensinado, uma canção tão bonita na copa das árvores...

         E recostou outra vez sua cabeça no peito do pai. Sentiu a ternura que lhe era transmitida pelo calor que emanava daquele homem de estatura baixa, magro e tão eficiente no trabalho. Ficaram por alguns instantes em silêncio. A lamparina que alumiava a sala onde a rede fora armada, estava bem branda, consumia avidamente o combustível que a fazia manter o pavio sempre aceso. Lá fora os cães ladravam. Um ou outro transeunte passava assobiando. As horas se adiantavam e, Guerra dormiu. Sua mãe, Nhá, veio para ajudar Carrinho a acomodar o garoto na rede, enquanto se ouvia, bem longe, um som de violão e uma voz maviosa que cantava: “...E lua cortando nosso zinco, salpicava de estrelas nosso chão...” 

         Carrinho foi até a janela e a abriu. A lufada de um vento agradável bateu no seu rosto. Olhou para os lados do nascente, descobriu que uma grande lua surgia lá por trás do Vale. Daqui a pouco o galo do terreiro iria cantar. O mundo descansava em paz.

         Nhá veio e ficou do seu lado. Ambos ouviam a canção ao longe. Olhavam para lua bela sem igual. Aquele casal de tanta união e acostumados com suas maneiras e temperamentos, de tantos anos de convivência, pensavam no outro filho que havia de chegar. Qual o seu futuro naquela cidade pequena, mas de política tão renhida? O que, afinal, João batista Guerra fará para pôr em prática o que aprendera como professor diplomado?

         - Sabe mulher. Estou aqui pensando. João chega diplomado. Não há sequer uma escola pública. Duas somente e particulares. Qual o futuro do nosso filho aqui? Ele é adepto dos liberais, gosta de se envolver em política, amigo do Coronel Dito Saldanha, contra os Pinto, como será daqui para frente, agora que ele possui um Diploma e vai querer fazer uso dele? E ainda por cima essa pendenga com a invasão dos cangaceiros para matar Chico Pinto, a mando de alguém?

         Nhá, pensativa, também disse algumas palavras:

         - Eu também me preocupo. Ainda bem que ele nem estava por aqui quando aconteceu essa tal de invasão. Mas fico pensando: ele está noivo de Faci, a filha de Seutônio farmacêutico. Não vai querer ir para outro lugar. Fará alguma coisa por aqui mesmo. O que, só Deus sabe! Por outro lado, quando ele veio nas férias do ano passado, andou com o Coronel Dito Saldanha, Alfredo de Terta e Palpito. Tive notícias de que fizeram alguns estragos para as bandas da cidade de Assu. Essa amizade dele com o Coronel é o que mais me preocupa. O povo todo gosta muito dele, nós sabemos. Até tem gente falando que quer ele como prefeito de Verdejante. Você sabe Carrinho, ele é político por natureza. E isso é o que me tira o sono. A politicagem em Verdejante é uma coisa ruim. Maldade. Violência. Para completar inventaram de contratar pistoleiros para matar o adversário. Estou receosa com o nosso filho João. O que será dele, aqui? Casa, a moça é gente fina, de boa família. Mas e o que ele fará? Viver trabalhando no que? Professor? Onde?

         Carrinho ouviu toda a lamúria da mulher. Fumante, já havia durante aquele intervalo de tempo fumado quase dez cigarros que tinham o nome de “Astória”. Vinham embalados num papel amarelo e o nome em letras bem visíveis de cor preta.

         Foi entrando, pesaroso, com sono, mandou que Nhá fechasse a janela. Disse apenas isso:

         - Seja o que Deus quiser.
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RESUMO: Nos próximos capítulos muita agitação. Novidades com a chegada do professor João Batista Guerra. Os meninos Danta e Guerra estarão no centro de tudo? Padre Benedito Alves será o bombeiro nas ocasiões beligerantes de ambos os lados? Coronel Chico Pinto x Coronel Benedito Saldanha. Vamos aguardar.

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* William Lopes Guerra é advogado, pesquisador e escritor em Apodi, herdeiro dos direitos autorias do pai.


sexta-feira, 22 de julho de 2011

Minha Crônica de Sexta

The Hug - Romero Brito

Como já dizia Guimarães Rosa, “Mestre não é aquele que ensina, mas aquele que, de repente, aprende". No dia do amigo, foi a minha vez de aprender o que é ser amigo de verdade.  Minha crônica de hoje  no A&U conta como foi essa verdadeira  "Aula de Amizade".


Acesse: www.aspirinasurubus.blogspot.com e confira!

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Estado comemora vitória contra os professores e o prejuízo dos 300 mil alunos do RN

Por Cezar Alves


De ontem para hoje tenho sido abordado freqüentemente na rua com a seguinte pergunta: Quem venceu a queda de braço entre governo e professores?


Explico a cada um deles e agora faço aqui. A pergunta está errada. Não é para perguntar se foi o governo ou os professores que venceu. Isto não tem pouco sentido ao cidadão.

A pergunta correta é: qual foi o tamanho do prejuízo dos 300 mil estudantes durante os 80 dias de greve e os 56 dias sem aula no Rio Grande do Norte?

Seguida da seguinte pergunta: O que o nobre amigo cidadão está fazendo para reverter este quadro calamitoso, desastroso, negro que a Educação está caminhando há anos?

Estas perguntas nos remetem a várias reflexões necessárias como cidadão, algo que pouco temos feito a respeito de questões tão graves quanto o tema Educação pública.

O descaso do Estado com educação em todos os sentidos é fato incontestável. Logo não existe o que se discutir sobre quem ganhou a queda de braço se o Estado ou professores.

A única coisa que merece um debate é o tamanho do prejuízo dos 300 mil alunos da rede estadual de ensino. Perderam 6 meses de estudos. O que eles fizeram nestes 6 meses?

Mas o professor grevista pode perguntar: “Mas estes estudantes estivessem nas escolas caindo aos pedaços, com professores carrancudos, despreparados, ganhando ruim, sem livros, sem merenda que preste, do que adiantaria?”

Ou seja, diante do atual quadro calamitoso da educação, defendo que o cidadão deveria está na rua cobrando melhores resultados de seus governos na Educação e não ficar olhando com o rabo do olho para o professor que está apenas brigando por seus direitos assegurados em lei.

Quer saber o nível de aprendizagem dos alunos nas escolas de segundo grau, vá a qualquer universidade e pergunte o nível de desempenho médio dos universitários.

Enfim, o prejuízo dos estudantes é de bem antes da greve e não é pequeno. É gigante. E a culpa é sua, é minha, é nossa. Somos os pais e o Estado e como tal temos a obrigação de providenciar o melhor para nossos filhos.

E quem tá no governo? Resposta: entendo que são apenas meus empregados desobedientes.

Ao #levantedoelefante!



Fonte: www.nominuto.com

Lançamentos!

A “Rede Potiguar de Escolas Leitoras” em parceria com o IDE – www.ideducacao.org.br – preparam uma série de lançamentos que acontecerão no próximo dia 29 de julho. Os convites e maiores informações encontram-se abaixo. A suas presenças e colaborações para a divulgação são bem vindas.




Da assessoria de imprensa do IDE


O tal dano da greve.

Por PABLO CAPISTRANO*




Tem danos que vem com a ausência. Tem outros que chegam mesmo na presença. Lembro de ter ouvido uma história em Santa Cruz, sobre uma aluna recém concluinte do ensino médio que chorou diante de uma prova de vestibular da UFRN.

Quando ela abriu a prova de Física entrou em pânico. Nada daquele vasto universo de conceitos exóticos e intrincadas ideias, transmutáveis em fórmulas matemáticas, fazia sentido para ela. A garota havia passado todo o ensino médio regularmente matriculada na rede pública de ensino do estado do Rio Grande do Norte e havia estudado apenas um assunto da disciplina de Física.

Um único, inexpugnável, irredutível, tema. Uma única e absoluta problemática. Uma só grande questão desde que Galileu, Copernico, Newton e Heisenberg pisaram sobre a terra. Um mesmo tópico, alçado a tal categoria de abrangência, que parecia resumir tudo o que os físicos construíram em quase três mil anos de ciência ocidental. A garota havia passado o ensino médio estudando Movimento Retilíneo Uniforme e Movimento Uniformemente Variado, nada mais, nada menos.

Um ex-aluno, também recém formado no ensino médio, fazia as vezes de professor, ocupando um espaço vago na sala de aula, tentando, com seu esforço pessoal, suprir as carências daquela turma. Como o rapaz, sem perspectiva de uma graduação na área de Física, só dominava esse tema, só tinha condições de ensinar esse único tópico.

A despeito de ter ou não acontecido desta forma, essa surrealista história nos alerta para um dado muito evidente: o dano pedagógico não se cristaliza apenas quando a escola está fechada, com seus servidores mobilizados por uma greve.

O dano pedagógico também se processa quando as portas da escola estão abertas e se manifesta costumeiramente em uma carência, em uma ausência, em uma desconcertante ilusão: a ideia de que o fato de o aluno estar em sala de aula é razão necessária e suficiente para que a qualidade do ensino se manifeste.

Esse delírio ontológico nos faz pensar que só o fato do aluno estar diante de um professor já exime o Estado de suas responsabilidades em empreender políticas reais, efetivas de valorização da educação.

Faz tempo que o Estado potiguar se auto alforriou da obrigação de implementar uma política educacional de qualidade. Faz tempo que não há interesse, por parte do poder público em pôr em uma mesma sala de aula o filho do juiz e o filho da empregada doméstica. Faz muito tempo, que setores mais influentes da sociedade brasileira, se acostumaram a pensar que o espaço da escola pública é um espaço de uma educação pobre para o povo pobre.

Esse é um modo perverso de manter aquela velha ordem aristocrática de poder social, na qual filhos de famílias bem dotadas economicamente tem a concorrência por posições sociais diminuída em função do desnível, do descompasso, entre a educação que lhes é oferecida e a educação que se oferece para os filhos dos empregados de seus pais.

Não é a greve, amigo velho, que produz o verdadeiro dano ao aluno da escola pública potiguar. Não são os professores, cansados de serem tratados como cidadãos de segunda classe, lançados pela lógica da exclusão na base da cadeia alimentar das profissões, que criam o dano real aos alunos desse estado. É essa sede, amigo velho, essa carência de cuidado, que nasce da omissão de uma sociedade que parece não estar muito a fim de levar a sério a educação de seus filhos. Uma sociedade que elege a muitas décadas governos produtores de greves, sucateadores de sonhos, moedores das esperanças de gerações e gerações de alunos potiguares.

 
 
* Publicado no Blog Simplesmente Sirlia

Romance de Quinta

Aventuras do Menino Danta e seu amigo Guerra
  Por William Guerra*



CAPÍTULO XII

            Ontem à noite voltou o Coronel Chico Pinto.
           
            O entra e sai na sua morada, de pessoas que lhe vieram prestar solidariedade muito lhe confortou, a si aos seus familiares. O padre Benedito Basílio Alves constituía-se no seu maior confidente. Conversavam trancados num quarto, saíam para o quintal, voltavam à sala de estar. E assim passaram quase toda a noite, que a esposa do Coronel classificou como sendo a “noite da agonia”.

            O dia amanheceu igual a todos os outros dias que amanhecem sem novidade nenhuma. As pessoas acordam, levantam fazem algum asseio e alguns cidadãos, pais de família, vão à “pedra” fazer compras.

            Naquele comércio, há quase de tudo para se comprar: café em grãos, açúcar, feijão, milho, bolo, tapioca, verdura, frutas. Os que possuem maior poder de aquisição, dão uma espichada até o Açougue, comprar um mercadinho de carne. Outros levam uma palha de peixe. Na volta, cada qual carregando um balde ou cesto, passam pela Padaria e compram pães para o café da manhã.
           
            Estavam os funcionários da grande loja de sociedade do Coronel e o comerciante João de Brito, abrindo as portas, quando se ouviu tropel de cavalos, poeira levantar parecendo que um gigante redemoinho passava veloz. Gritaria. Disparos de armas de fogo. Corre-corre pelas poucas ruas de Verdejante. Alguém gritou na porta da residência do Coronel Chico Pinto:

            - Foge Coronel! Os bandidos estão chegando!

            Não houve escapatória, Massilon e mais alguns cabras pararam em frente a casa de Chico Pinto. Houve correria. Gente se escondendo. Um alvoroço nunca antes presenciado em Verdejante. Outra metade seguiu para a loja de comércio. Ali chegando, atearam fogo em tudo, enquanto pegavam peças de tecido e jogavam para a rua. Ninguém sabia o que fazer. O delegado Luiz Marchante não se encontrava.

            Enquanto isso, padre Benedito Alves, com a sua batina preta esvoaçando, vinha feito um leopardo pela calçada. Avistou alguns pistoleiros com espingarda na mão, guarnecendo a entrada da casa do Coronel. Ao avistarem o Vigário, retiraram o chapéu da cabeça, todos, automaticamente, e dobrando os corpos para frente, fizeram uma reverência finíssima ao padre.

            Padre Benedito indagou com fúria na voz:

            - Cadê o poderoso chefão de vocês?!

            Os sujeitos apontaram para dentro da residência:

            - Está lá, vê se pega o Coronel para matar!

            O Cura da paróquia de Verdejante fechou os punhos, empurrou um dos camaradas que atravessara na porta, e foi-se casa adentro.
            Mal amanheceu o dia, os cangaceiros invadiram a cidade. Foram primeiro à delegacia policial e prenderam os soldados, não foi preciso soltar presos, não havia nenhum. Depois seguiu uns homens para a grande oja Chico Pinto/João de Brito e outra parte acompanhou Massilon até à casa do Coronel. Nas ruas as pessoas estavam assim como cegos em tiroteio, sem sabe o que fazer ou para onde ir. Afinal a notícia que se tinha era a de que Massilon invadiria Verdejante na quinta-feira, hoje é quarta.

            Massilon encontrava-se deitado numa rede branca, de varandas, e obrigara o Coronel Chico Pinto sentar num lado, com um pinhal quase espetando seu pescoço. A esposa do político chorava, ajoelhada, pedindo ao celerado:

            - Por Deus, seu Massilon, leve tudo o que é nosso, mas não mate o meu marido!?

            Os filhos de Chico Pinto haviam sido retirados da casa por trás, atravessando a cerca e se escondido em residência de amigos.

            O padre Benedito, chegou bem próximo do cangaceiro, que lhe estendeu a mão e, ao apertá-la, trouxe-a para bem pertinho e a beijou, pedindo a bênção ao Vigário:

            - Sua bênção, padre...

            - Deus te abençoe!

            Padre Benedito Basílio Alves não era homem que temesse qualquer coisa, nem os cangaceiros armados até os dentes. Enfiou a mão direita no enorme bolso da batina, pegou no cabo do seu revólver e ficou assim, puxou conversa com Massilon:

            - Deixa este homem em paz! Vamos para a igreja que vou celebrar uma missa para vocês! Depois da celebração da santa missa, resolverás o que fazer.

            Massilon não se mexeu. Aperto mais o punhal no pescoço do Coronel. O padre o convidou novamente, agora em tom ameaçador. Sabia do perigo que estava correndo o seu amigo. Mas, também, com pessoa daquela qualidade, como Massilon, o negócio tinha que ser na base do ou tudo ou nada!

            - Seu Massilon! Levante-se e chame todos os demais bandidos para irem à igreja! Estou ordenando, não estou convidando. E se não fores por bem, irás por mal!

            Chico Pinto viu o fio de vida que ainda lhe restava se romper. Seria sangrado que nem um bicho bruto, ali, em sua residência, na frente da esposa e do padre Benedito que, parecia, ao invés de ajudar, o estava sentenciando à morte. Mas, não dizia nada, branco que só capulho de algodão, a mercê da crueldade do sanguinário. Sua mulher correu para o quarto, aumentando o pranto, pedindo clemência a Deus.

            Massilon ainda permaneceu por alguns minutos naquela posição, espetando o pescoço do Coronel. Mas de repente, de um salto, ficou de pé e avisou:

            - Está bem, padre. O senhor ganhou. Vamos à missa. Mas terminada a cerimônia, eu venho para sangrar este homem, vale muito dinheiro. Não morrerá baleado, morrerá sangrado.
            Chico Pinto ficou de pé, também, mas com muita dificuldade. Tremia. Ainda não pronunciara nenhuma palavra. Retomando, aos poucos, o ânimo perdido, como era homem de coragem também, conseguiu dizer:

            - Massilon, sei que me matarás. Mas antes que o faça, diz para nós quem foi o cachorro que lhe contratou para tirar-me a vida?

            Já agora mais corado, andando, entre o padre e o Chefe dos bandidos. Massilon não respondeu. Chegando à calçada, ordenou a um dos seus homens:

            - Vai, Tição, chama os homens para a igreja, vamos assistir a uma missa.

            Um cangaceiro, cuspindo de lado uma golda amarela, pois era um mascador de fumo preto, explicou:

            - Pancadão atirou num homem lá em baixo. Matou. Não houve necessidade, mas não deu tempo de a gente impedir...

            Não terminou a frase, Massilon ficou possesso:

            - Cadê o condenado! Não dei ordem para não ferir ninguém? Vou dar-lhe uma surra de facão e amarra-lo num tronco de uma árvore! Tem que morrer de fome e sede! Ai daquele que se meter a besta! Vai lá e amarra o maldito!

            O homem, mal-encarado, suado, ainda comentou:

            - Está caindo de bêbedo, o miserável..

            E se foi cumprir a ordem de Massilon. Padre Benedito se benzeu. Mandou que Manoel Dantas abrisse todas as portas da igreja. No patamar, os cabras deixaram todas as armas e seus chapéus. Entraram no templo e iam, um a um, fazendo a genuflexão diante do Altar-mor. Padre Benedito foi para a Sacristia, vestiu os paramentos para celebrar a missa.

            No banco da frente se sentaram Massilon e o Coronel Chico Pinto e mais outro camarada alto e forte, parecia ser o lugar-tenente de Massilon, ou o segundo mais importante daquele bando. O Vigário manda chamar Masilon à Sacristia. Houve um princípio de tumultuo entre os homens. Chico Pinto aproveitou da confusão e, saindo bem devagar, correu por uma porta lateral e sumiu. Ao voltar, Massilon não encontrou o Coronel Chico Pinto. Riu e disse para o padre:

            - O senhor o salvou, não foi senhor Vigário? Nada não. Outro dia eu volto.

            A missa foi celebrada bem lentamente. Estratégia de padre Benedito Basílio Alves, dá um tempo para Chico Pinto fugir para lugar seguro. Os meliantes assistiram calados à missa. Ouviram o sermão do padre com atenção. Enquanto isso, lá fora, Pancadão padecia em cima de um cavalo, quase a cair, de mãos para trás bem amarradas. Os mais afoitos olhavam das esquinas, pelas brechas das portas e janelas todas as cenas daquela manhã de grande aflição.

            Massilon indagou do padre quanto estava devendo pela missa. Respondeu que aquela era uma celebração em homenagem à sua figura, e que pedira a Deus para fazê-lo renunciar à vida de bandoleiro. Massilon agradeceu, beijou novamente a mão do Vigário e foi embora com os seus homens, saindo pela Rua do Alto, levantando poeira. De repente a igreja estava repleta de gente. Todos queriam saber do padre para onde teria ido o Coronel Chico Pinto. Até mesmo o prefeito, irmão do Coronel desejava saber do seu paradeiro:

            - Diga senhor padre, para onde mandou o meu irmão?

            Sem responde, padre Benedito Basílio Alves, depois de tirar os paramentos e mandar que o Sacristão fechasse novamente todas as portas da igreja, foi saindo rompendo a multidão, em direção à casa do Coronel Chico Pinto.

            Alguém falou com ironia e desdém:

            - Espia! Quem vem acolá feito um burro de cela?

            O povo gargalhou alto. Uma gozação só. Era o delegado Luiz Marchante que, finalmente, dava o ar da graça. Ao esbarrar com o padre e o prefeito, cercados por quase toda Verdejante, bradou, enquanto retirava o chapéu do panamá:

            - Um dos cangaceiros atirou em Rodrigues de Adélia. Morreu na hora. Já estive lá. Muito choro. Não deu tempo prender o criminoso. Mas vou organizar toda a guarnição e mais alguns homens e perseguir o bando!

            Novamente ouviram-se sonoras gargalhadas. O delegado recolocou o chapéu e ficou enraivecido.

            - Estão rindo por quê? Eu não cheguei na hora porque havia ido ao Juazeiro olhar uns animais. Logo que tive notícia do que acontecia por aqui vim correndo!

            Padre Benedito, já em casa de Chico Pinto, explicou para todos que Massilon resolveu antecipar a invasão justamente porque desconfiara que um cabra, o Vento Solto, poderia ter avisado. O Vigário, adiantou ainda, que dissera ao bandido que ninguém apareceu para dizer nada. Caso isso tivesse acontecido, ele, Massilon, teria outra recepção, não uma missa.

            - E ele acreditou?

            Luiz Marchante, o delegado, fez esta pergunta. Padre Benedito respondeu que sim.
           
            - Pelo menos foi a impressão que me deu.

            A mulher do Coronel Chico Pinto apareceu, limpando os olhos constantemente com uma toalha, avançou em direção ao amigo Vigário da cidade, exclamou:

             - Obrigada, senhor padre! O senhor salvou o meu marido! Deus há de recompensá-lo!
            Padre Benedito respondeu com calma, dizendo que não fizera mais do que a sua obrigação. Que ela ficasse tranqüila que Chico Pinto logo, logo estaria em casa são e salvo. O importante era dar um tempo. Vê se Massilon não voltaria, pois foi o que ele prometera. Mas adiantou, olhando fixo para o prefeito Lucas Pinto que se deveria redobrar a vigilância.

            Com todo aquele burburinho se passando em Verdejante, Guerra e Danta se mantiveram atentos: viram quando tocaram fogo na grande loja de comércio; atiraram em Rodrigues de Adélia; e quando o Coronel Chico Pinto saiu pela porta lateral da igreja, subiu num cavalo que o esperava e disparou rumo ignorado.

            Padre Benedito, deixando os familiares do Coronel mais tranqüilos, saiu, se despedindo, iria à residência da única vítima daquele vexame. Queria se inteirar de tudo e confortar a viúva e os filhos. O acompanhou o Sacristão Manoel Dantas. Pelo caminho ia recebendo os cumprimentos das pessoas, pela grande habilidade com que conduziu a situação de constante perigo, não só para o Coronel Chico Pinto, mas também para todos os habitantes do lugar.

            Encontrando-se com o soldado Lúcio, perguntou se a coisa já estava normal na Delegacia. O militar respondeu que sim. Mais na frente, na esquina da farmácia de Seutônio, parou para responder a algumas perguntas de amigos que se encontravam discutindo todo o drama vivido por todos naquela manhã.

            Seutônio, Adrião Bezerra, Afrânio, Inácio, João de Brito, Luis Leite, João de Deus e mais alguns senhores da sociedade verdejantense, que chamaram o Vigário para as explicações necessárias.

            - Bem. Cheguei e vi uma cena dantesca na casa do Coronel. Confortei sua esposa. Fiz um convite a Massilon para que assistisse uma missa, ele aceitou. Conversei em particular com ele na Sacristia, na presença somente de Manoel Dantas. Que Deus me perdoe mas menti. Disse para o Massilon que ele não sairia vivo de Verdejante, caso fizesse alguma coisa com Chico Pinto. Que uns cem homens estavam entrincheirados, na saída da cidade aguardando a sua passagem. Caso nada fizesse, ele poderia ir embora com os seus cabras, naquele momento que haviam matado um dos nossos. Massilon pensou, alguém puxou Chico Pinto pelo braço e o levou para um local combinado, que apontei. A missa transcorreu normal, Massilon se despediu dizendo que voltaria. Mas acho que não volta mais.

            Algumas perguntas mais foram feitas. O padre disse que pretendia ir até à residência de Rodrigues de Adélia. Lamentou o acontecido. Ouviu as explicações de que diziam que a culpa, em última análise, fora do próprio Rodrigues, porque se aproximou demais de onde eles estavam bebendo, rindo, e aí o cabra assassino pensou que ele zombava deles, atirou. Um só tiro o matou.

            Quando padre Benedito e Manoel Dantas chegou à casa do morto, lá já estavam Danta e Guerra, queriam saber de tudo, ver tudo, para comentarem com todos os detalhes os acontecimentos daquele dia de pesadelos para a cidade. Muita gente lamentando, dando os pêsames a dona Adélia. Os filhos também choravam. Uma cena bastante triste. O padre confortou a viúva, apertou a mão de cada pessoa que o cumprimentava, disse que o enterro deveria ser à tarde, ele mesmo celebraria uma missa de corpo presente. Dona Adélia agradeceu.

            E assim foi o dia inteiro. Gente para todo lado, cruzando as ruas e enfrentando seus lençóis de areia. Cada um dizia o que pensava, dava a sua opinião. Havia aqueles que culpavam a política, outros que diziam que a culpa era a falta de segurança, outros mais argumentavam que a violência estava demais no sertão nordestino. Lampião assombrando cidades e povoados, enquanto seus seguidores faziam o mesmo. O governo tinha que fazer alguma coisa. Não o estadual mas o federal. Mas o federal já está fazendo conjuntamente com os estaduais de todo o Nordeste. As volantes perseguiam noite e dia os bandidos. Era uma questão de tempo dariam cabo ao bando sanguinário de Lampião. E quando isso acontecer, este tal de Mssilon botará a viola no saco, abandona o cangaço para não ser pego pelas volantes.

            Danta e Guerra nem foram em casa. Parece que toda a Verdejante não fez almoço naquele dia. Ninguém se preocupava em comer. Não se sentia fome. As donas de casa também cochichavam pelas calçadas. As escolas particulares não funcionaram hoje. O comércio inteiro ainda se encontrava fechado. Nada funcionava em Verdejante, nenhuma repartição. Havia no ar como uma nuvem de preocupação, o terrorismo em pleno sertão, ninguém se sentia seguro a partir daquele acontecimento.

            Os dois meninos saíram por aí, de esquina em esquina ouvindo as pessoas. Entravam em botecos, passavam pelo Mercado público, na frente da Delegacia. Aí pararam por mais tempo, queriam saber a versão dos soldados. Estes, ainda com muito medo, diziam que foram desarmados e trancados nas celas. Os cangaceiros levaram as armas e toda a munição.

            Danta comentou baixinho no ouvido de Guerra:

            - Que vexame!

            Guerra riu. Wilson chegou para andar com os dois. Também ficara apavorado. Disse que lá em sua casa seu pai não deixou ninguém sair. Guerra relatou todos os acontecimentos, aumentando mais alguma coisa, Wilson arregalou os olhos e exclamou:

            - Vixe!

            Agora os três que perambulavam pelas ruas, pelas calçadas, qualquer parte, sempre havia um aglomerado de pessoas a conversar.  Já passava do meio dia. Sequer as doze badaladas Manoel Dantas tocou no sino da igreja. Um dia atípico. Não foi pouca coisa não. Muita confusão, horror, desmaios e uma morte. Diziam os verdejantenses que Rodrigues de Adélia morrera no lugar do Coronel Chico Pinto. Massilon ficara desorientado quando soube o que fizera um dos seus capangas. Chegou a informação, alguns reputando como mentirosa, de que Massilon matara o Pancadão na saída da rua e o atirara no meio da mata. Mas ninguém se atrevia a ir por lá saber da verdade.

            Resolveram os três garotos tomar banho na lagoa, antes do enterro de Rodrigues de Adélia. Chegando no poço das Matutas, encontraram banhistas sentados, em roda, conversando sobre os acontecimentos. Guerra percebeu, pelo que ouviu e sobre o que ele mesmo vira com seus próprios olhos, o quanto aumentavam as histórias na medida em que iam passando de boca em boca. Ora, estavam dizendo que padre Benedito botou o cano de um revólver na boca de Massilon e o obrigou liberar o Coronel Chico Pinto. Outras inverdades foram ditas como as que inventaram dizendo que Rodrigues de Adélia entrou em luta corporal com o sujeito que o matou. Até estavam comentando de que, na igreja, Chico Pinto, para fugir, deu um pontapé na bunda de Massilon e saiu correndo e pulou na cela do cavalo que disparou em busca do sítio peque.

            - O povo não aumenta, inventa.

            Disse Danta, invertendo o ditado onde se diz assim: o povo aumenta, mas não inventa. Guerra e Wilson fizeram um gesto com a cabeça dizendo que sim, aquilo tudo não tinha paradeiro. Dias virão e o povo inventando mil e uma cenas pelos episódios cruéis acontecidos neste dia.

            Mergulharam e, por alguns momentos, esqueceram os tristes acontecimentos. Banharam-se. Notaram que não havia lavadeiras de roupa por ali. Botadores de água com seus jumentos e ancoretas também não se encontravam. Quer dizer, aquele dia foi totalmente fora da rotina habitual do lugar. As pessoas deixavam seus afazeres,, iam para as ruas saber das novidades. Debaixo dos pés-de-figo, aproveitando da sombra que faziam, homens, mulheres e jovens palestravam, cada emitindo o seu parecer, indicando um episódio a mais, outro a menos; acrescentando na dose, diminuindo na textura; pondo a cereja no píncaro do bolo, derramando a cobertura para todo lado.

            Havia até aqueles que discutiam brabos. De longe, não se lhes conhecessem os espíritos pela proximidade de todos, uma vez que Verdejante não tinha mais do que 800 famílias habitando a zona urbana, pensavam-se logo de que estavam brigando. Um pego daqui, outro de lá, mais um de cá, esse dali,,, Maneira que Massilon e seus camaradas deixaram Verdejante em polvorosa. Escapuliu o que tinha sentença de morte, morreu o que não fazia mal a uma mosca. Era esse o pensamento de muitos.

            Já o sepultamento de Rodrigues de Adélia estava, nesse instante, acontecendo, no Cemitério próximo à timbaúba velha. Padre Bemedito celebrou missa de corpo presente. Fez um sermão emocionante. Quando, exatamente, fez o trocadilhos que muitos apreciaram: o cangaceiro veio para tirar a vida de um cristão, errou e tirou a vida de outro cristão, ou: atirou no que viu, acertou o que não viu!

            A família de Rodrigues de Adélia estava condoída, ainda em prantos. Como seria negra a noite que se aproximava. Os  últimos raios do sol de começo de dezembro iluminavam os campos distantes. Daqui a pouco, na hora do Ângelus, a viúva derramaria o seu pranto pela dor provocada por um ato brutal e desumano. O mais terrível era saber que o celerado não teria uma Ave-Maria por penitência. Corria solto por aí, a fazer novas viúvas, deixar outros órfãos neste mundo sem paz.

            Mas o que faziam os dois meninos perdidos no meio daquela gente humilde, pacífica e que pagavam um preço alto pela falta de compreensão entre os homens daquela cidade tão pequena? Que queriam Danta e Guerra ouvir o lamento dos mais idosos, para estarem assim, absortos, de deu em deu, a cata de conversas que sequer entendiam? Isso o que se dá em comunidade onde impera a inveja, a desunião, o egoísmo. A disputa política sem limites, apesar de poucos habitantes, cada um queria o poder, ambicionando os privilégios, as benesses e o apadrinhamento. Este ganhava aqui, perdia lá em cima; aquele ganhava por cái, era derrotado por lá. Um troca, troca sem fim. Sobe e desce. Hoje és tu a mandar. Amanhã serei eu!  Eis o que pensavam as facções beligerantes e, por causa disso, aconteciam as mortes, a tragédia. Verdejante não ficava fora deste quadro de violência e desumanidade. Ainda tendo, como figuras da desgraça pelas desgraças os cangaceiros que andavam perambulando a fazer misérias.

            Danta e Guerra ouviam todos os comentários. Não perdiam nada.

            Sentados numa beira de calçada, foram despertados pelas seis badaladas do velho sino da igreja secular. Manoel Dantas era pontual. Do cume do teto da igreja os morcegos afugentados saíam em procissão, ziguezagueando, queriam sangue, estavam com sede de sangue...

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RESUMO: Os desdobramentos da invasão. Espectativa do que poderá acontecer daqui para frente. Os próximos capítulos serão repletos de surpresas. Mil e uma estripulias praticadas pelos dois meninos: Danta e Guerra. Aguardemos.
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* William Lopes Guerra é advogado, pesquisador e escritor em Apodi, herdeiro dos direitos