Meu amigo preparou o almoço. Uma massa pesto maravilhosa.
Quando sua esposa apareceu em casa, fui elogiar:
— Seu marido é um autêntico chef italiano. Cozinhou uma massa e tanto.
Adivinha o que ela respondeu?
— Assim é fácil, qualquer um faz, ele usou molho pronto.
Em vez de comemorar o capricho do marido, ela desdenhou. Ela subestimou. Ela colocou o sujeito para baixo. Ela diminuiu a importância do ato.
De repente, nem percebemos o quanto rebaixamos quem a gente ama.
Pelo pretexto da sinceridade. Pelo pretexto da espontaneidade.
É um desejo de desmascarar totalmente dispensável, é um desejo de ser mais verdadeiro do que a verdade totalmente desnecessário.
A pessoa se esforça em ser gentil e agradar e não respeitamos a tentativa, não reconhecemos a intenção.
Temos que avacalhar, mostrar que o outro não é perfeito, expor fraquezas publicamente, entregar os defeitos. Para quê?
Devia ser o contrário. Os casais deviam se proteger, deviam se cuidar, deviam se unir pelas virtudes.
Os casais deviam se incentivar, se elogiar, se respeitar.
Acordar e já escolher algo bom a ser dito, algo bom a ser sublinhado. Não alimentar o rancor já no café da manhã.
O mundo do trabalho já é tão cheio de crítica, o mundo do trabalho já é tão perverso, não é justo maltratar nossa família.
Fabrício Carpinejar
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terça-feira, 16 de julho de 2013
domingo, 12 de maio de 2013
O gosto de ter mãe
Por: José de Paiva Rebouças
Publicado originalmente no www.defato.com.
Estamos tão acostumados com a velocidade do mundo que muitas vezes nos esquecemos de sentir o gosto das coisas: da água natural e seu sabor mineral, do vento que nasce nos pés das laranjeiras, do sol batendo vagarosamente em nosso rosto de manhãzinha. Nos esquecemos de sentir o gosto do abraço, do aperto de mão caloroso, da gargalhada descompromissada por ouvir alguém dizer algo muito particular de um tempo que se passou. Muitas vezes nos esquecemos de coisas básicas como comer na hora certa, beber água e, por mais estranho que seja, de que temos mãe, pai, filhos e gente que sente saudade de nos ver.
Eu tenho mãe e algumas vezes, gosto de repetir essa frase só para ouvir o som da minha voz repetindo este enredo sublime. Vejo as imagens nítidas de suas mãos acariciando-me os cabelos e escuto suas palavras mansas de sabedoria empíricas. Costumo me perguntar como teria sido a minha vida se a tivesse ouvido mais e aceitado mais suas indicações. É costume de filho duvidar da experiência materna e se embrenhar no mundo feito caçador sem rumo no meio do matagal. Mas como tenho dela a fortaleza de espinhos, tenho sobrevivido a minhas escolas até aqui, embora relembre com frequência cada recomendação.
Não posso reclamar de infelicidade porque não aprendi a ser assim. A via sempre dando graças a Deus pela comida que faltava e achava isso de uma grandeza tamanha que quase nunca tinha fome. Talvez tenha sido a compaixão de Deus que dela é muito próximo, que tenha me feito, assim como a meus irmãos, garrotes bons de traçado, fortes para doenças e destemidos para a vida. Dia desses, a ouvi dizer que vencera na vida e senti uma inveja tremenda de suas palavras. Olhei sua casa simples de zona rural, seu carrinho velho com quase duas décadas, sua conta no banco que só entra uma aposentadoria mínima e não via a confirmação de sua frase e foi aí que percebi que estava aprendendo com ela mais uma grande lição. Não é pelo que se ganha ou pelo que se conquista que a gente se torna vencedor, mas pelo que se supera na vida e pelo que se colhe no futuro. Afinal de contas, só as sensações importam e ficam para sempre.
Publicado originalmente no www.defato.com.
quarta-feira, 6 de março de 2013
Tempos Modernos e o Fim do Verbo
Compartilho abaixo essa interessante reflexão do grande Carlos Santos sobre a comunicação nos tempos modernos. Vale a pena ler.
TEMPOS MODERNOS E O FIM DO VERBO
Confesso-lhes minha indisposição para boates: antes mesmo da tragédia de Santa Maria-RS, que se diga.
Luzes estroboscópicas, sirenes, fumaça, músicas eletrônicas, gente gritando, pessoas batendo umas nas outras.
Gosto de música, mas não imponho a ninguém meus gostos. Gosto de gente, porém não obrigo ninguém a me aceitar.
Prefiro a música em espaços em que eu possa conversar. Nada, nenhuma tecnologia, substituirá o face to face, a prosa presencial.
Mas estamos permitindo que a "modernidade" nos tire um grande diferencial nosso, como seres humanos: o poder da intercomunicação direta.
Estamos suprimindo a própria fala.
Há algo mais estúpido nesses ditos tempos modernos?
No princípio foi o verbo e nosso fim será não ter o direito à fala?
TEMPOS MODERNOS E O FIM DO VERBO
Confesso-lhes minha indisposição para boates: antes mesmo da tragédia de Santa Maria-RS, que se diga.
Luzes estroboscópicas, sirenes, fumaça, músicas eletrônicas, gente gritando, pessoas batendo umas nas outras.
Gosto de música, mas não imponho a ninguém meus gostos. Gosto de gente, porém não obrigo ninguém a me aceitar.
Prefiro a música em espaços em que eu possa conversar. Nada, nenhuma tecnologia, substituirá o face to face, a prosa presencial.
Mas estamos permitindo que a "modernidade" nos tire um grande diferencial nosso, como seres humanos: o poder da intercomunicação direta.
Estamos suprimindo a própria fala.
Há algo mais estúpido nesses ditos tempos modernos?
No princípio foi o verbo e nosso fim será não ter o direito à fala?
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
A Capitã Lili
Luiz Henrique Gurgel
Ela se assustou ao me ver correndo em sua direção. Mal soara o sinal do intervalo e disparei para a sala em que ela estava, para dar a notícia em primeira mão. Eu desviava dos alunos, saindo esbaforidos para o corredor estreito rumo ao pátio.
“Lili! Lili! Eu vou fazer Letras! Quero ser igual a você!”.
A cara da minha ex-professora de língua portuguesa e literatura nos três anos do ensino médio era de espanto. Pareceu sentir um travo na garganta e gaguejou com falsa indignação: “Você tá louca, menina! Não! Pelo amor de Deus! Vá fazer Economia, Direito. Professora, não!”.
Ouvi isso com ela me abraçando e sorrindo. Ficou comovida. Na hora veio à lembrança o verso drummondiano que ela nos recitava: “Vai Carlos! ser gauche na vida”. Eu devia ser a primeira aluna a dizer que queria ser professora por causa dela.
Lili hipnotizava. Não nos controlava com broncas ou caras feias, embora também recorresse a esses “recursos pedagógicos”. Era pela transfiguração de seu corpo e de sua voz ao ler poemas, contos, crônicas, trechos de romance, cartas e até artigos de jornal que ela nos segurava.
Éramos adolescentes e ficaríamos marcados por aquela experiência pedagógica, lúdica e literária. Lili tinha sido atriz de teatro, em seus tempos de faculdade. “Atriz das boas”, confidenciou o professor de matemática, antigo admirador platônico. No começo ninguém sabia da condição daquela estranha e simpática professora. Era uma novidade. Ao contrário do que estávamos acostumados, não ficava discorrendo gramática por todos os poros, nem percorríamos correntes literárias, suas origens, influências e autores principais, sem ver um trecho sequer daquilo que falávamos. Não, ela preferia ler para nós. Mais que isso, interpretar. Uma benção! Subia no tablado da sala e, como num palco, entrava em cena. Sem afetação, o gesto mínimo, uma folha de papel, uma revista ou um livro aberto nas mãos, caminhar ritmado de um lado a outro, voz pausada e suave, suficiente para encher a sala sem excessos: “Meu coração é um almirante louco/ que abandonou a profissão do mar/e que a vai relembrando pouco a pouco/ em casa a passear, a passear...”.
Extasiados, podíamos ouvir Drummond, Pessoa, Manuel Bandeira, Machado, Cecília Meireles, Patativa do Assaré, uma crônica de Fernando Sabino, uma carta de Clarice Lispector, de Mario Andrade ou até um artigo furibundo do jornal do bairro. Lembro mais dos poetas, claro. É que a leitura provocava um transe - "Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo..." - só quebrado ao final, quando havia comentários a fazer sobre estilo, referências, diferenças de gênero etc. etc. Então despertávamos e voltávamos para casa com vontade de ler aquilo do mesmo jeito que ela.
Não sei se provocava o mesmo efeito em todos. Lembro de colegas fascinados, Zeca, que sonhava ser médico; Clara, que queria ser advogada; Jô, que queria ser arquiteta, e eu, que não sabia o que queria.
Hoje caminho para ser uma orgulhosa Lili. Tal como ela, de leve esperança, de aérea esperança e, assim, me juntar a tantas outras espalhadas por salas de aula do Brasil. “Trago dentro do meu coração,/Como num cofre que se não pode fechar de cheio,/ Todos os lugares onde estive,/ Todos os portos a que cheguei”. Aquele porto eu já deixei, mas jamais sem esquecer o rondó da minha querida capitã.
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Até quando?
Mais um jovem apodiense é vítima de acidente no trânsito.
Enquanto isso, o descaso das autoridades com relação a essa realidade persiste inalterada, como se nada tivessem a ver com isso...
Enquanto isso, motociclistas, motoristas, ciclistas e pedestres brincam de transitar pelas ruas, desrespeitando a (já escassa) sinalização, as normas de trânsito e, sobretudo, desrespeitando a vida (a sua e a do outro), talvez por preferirem acreditar naquela falsa ideia do "isso nunca vai acontecer comigo"...
Enquanto isso nos preocupamos mais em saber qual carreata política tinha mais carros...
Enquanto isso nos preocupamos mais em saber qual carreata política tinha mais carros...
Enquanto isso, cá estamos a chorar a precoce partida de mais um de nossos entes queridos...
Até quando, Apodi? Até quando?
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
quinta-feira, 5 de julho de 2012
Macunaíma vive e corrompe
Por Rinaldo Barros (*)
(*) Rinaldo Barros é professor – rb@opiniaopolitica.com - http://opiniaopolitica.com
![]() |
| Imagem: Macunaíma (protagonista do romance homônimo de Mário de Andrade, interpretado em filme pelo saudoso ator Grande Otelo) anti-herói com sua frase característica: “Aí que preguiça!” |
Faz dias que ando assuntando sobre o significado de tudo isso que estamos vivendo. Cogito se não estaríamos vivendo “entre dois mundos: um definitivamente morto e outro que luta por vir à luz”. Busquei nos mestres do século passado uma possível fonte para compreender esta charada. Fixei-me em Macunaíma.
Segundo o próprio autor, Mário de Andrade, Macunaíma representa "a aceitação sem timidez nem vanglória da entidade nacional", concebida como o retrato cultural do povo brasileiro, índio branco, feiticeiro, mau caráter, preguiçoso, mentiroso, egoísta, gozador, capaz de rir de si próprio e de nunca perder uma piada. Terreno fértil para, frente à impunidade, florescer atos de corrupção, praticados com naturalidade, sem que sejam vinculados com a questão da ética ou com a moral vigente. Como se fossem coisas separadas.
Pequenas corrupções cotidianas são consideradas “defesas”, expressão muito usada por diversos segmentos da população. Um passo para aceitar a corrupção de todos os níveis.
Macunaíma poderia ser a metáfora de uma crise, mas também pode ser tomado como um desafio a ser vencido. O povo brasileiro teria sido formado historicamente de forma a ser capaz de adaptar-se, no cotidiano, a inúmeras formas de estratégias de sobrevivência.
Capacitou-se a conviver “espertamente” com situações adversas de exploração, violência, corrupção, miséria moral, discriminação, desemprego, analfabetismo, utilizando-se das armas ou mecanismos psicológicos os mais diversos. A arma mais utilizada é o humor. Mentir talvez seja a vice-campeã. Impontualidade e Hipocrisia disputam pau-a-pau.
Relembro agora que aprendemos com Gilberto Freire que a família patriarcal determinou toda estrutura social e as relações com o poder público. Formou-se sociologicamente “uma invasão do público pelo privado, do Estado pela Família”.
Para complicar ainda mais, nossa cultura tem como traço definidor sua diversidade e ao mesmo tempo o sincretismo de várias manifestações antropológicas, principalmente negras, índias e portuguesas. Assume dimensão gigantesca o problema da mestiçagem do povo brasileiro.
A mestiçagem é uma não-identidade. Somos todo mundo e não somos ninguém. Darcy Ribeiro, em seu ótimo O Povo Brasileiro, falou sobre o conceito de ninguémdade.
Ou seja, os brasileiros somos brancos que não são brancos, negros que não são negros, índios que não são índios.
Essa faceta adaptativa de nossa complexidade foi comprovada recentemente em pesquisa do IBOPE, cujo resultado aponta na direção da aceitação generalizada do nepotismo, do patrimonialismo (invasão do público pelo privado) e da corrupção eleitoral.
A pergunta “Você venderia o seu voto?” tem resposta imediata e sem pejo: “Depende do preço que você pagar”.
O Ibope tem pesquisa, não publicada, reveladora do grau dessa característica nacional: quase 75 por cento dos entrevistados admite que conviveria com a corrupção, se estivesse em cargo público. Na base do “todo mundo faz”.
Para terminar, a urbanização ocorrida em velocidade vertiginosa nos últimos quarenta anos expulsou milhões de trabalhadores rurais (caipiras) para os centros urbanos, lançando nas cidades muito mais gente do que as fábricas conseguiram ocupar.
São milhões de pessoas cujo único compromisso é consigo mesmo, com sua sobrevivência. A vida famélica não lhes deu oportunidade de perceber que existem princípios éticos em nosso mundo, menos ainda que a civilização somente será construída a partir da cidadania.
Resumo da ópera: provavelmente, “tudo continuará como dantes no quartel de Abrantes” durante um bom tempo. Até porque essas questões são estruturais, históricas, sistêmicas, e não serão resolvidas com a eleição de um “Salvador da Pátria” ou de um “Macunaíma”.
Oxalá, quem sabe, a cidadania venha à luz pela geração dos meus netos!
(*) Rinaldo Barros é professor – rb@opiniaopolitica.com - http://opiniaopolitica.com
quarta-feira, 30 de maio de 2012
sexta-feira, 16 de março de 2012
Para que serve uma relação?
Definição mais simples e exata sobre o sentido de mantermos uma relação?
"Uma relação tem que servir para tornar a vida dos dois mais fácil".
Vou dar continuidade a esta afirmação porque o assunto é bom, e merece ser desenvolvido.
Algumas pessoas mantém relações para se sentirem integradas na sociedade, para provarem a si mesmas que são capazes de ser amadas, para evitar a solidão, por dinheiro ou por preguiça. Todos fadados à frustração.Uma armadilha.
Uma relação tem que servir para você se sentir 100% à vontade com outra pessoa, à vontade para concordar com ela e discordar dela, para ter sexo sem não-me-toques ou para cair no sono logo após o jantar, pregado.
Uma relação tem que servir para você ter com quem ir ao cinema de mãos dadas, para ter alguém que instale o som novo, enquanto você prepara uma omelete, para ter alguém com quem viajar para um país distante, para ter alguém com quem ficar em silêncio, sem que nenhum dos dois se incomode com isso.
Uma relação tem que servir para, às vezes, estimular você a se produzir, e, quase sempre, estimular você a ser do jeito que é, de cara lavada uma pessoa bonita a seu modo.
Uma relação tem que servir para um e outro se sentirem amparados nas suas inquietações, para ensinar a confiar, a respeitar as diferenças que há entre as pessoas, e deve servir para fazer os dois se divertirem demais, mesmo em casa, principalmente em casa.
Uma relação tem que servir para cobrir as despesas um do outro num momento de aperto, e cobrir as dores um do outro num momento de melancolia, e cobrirem o corpo um do outro, quando o cobertor cair.
Uma relação tem que servir para um acompanhar o outro no médico, para um perdoar as fraquezas do outro, para um abrir a garrafa de vinho e para o outro abrir o jogo, e para os dois abrirem-se para o mundo, cientes de que o mundo não se resume aos dois.
Dr. Drauzio Varela
sexta-feira, 2 de março de 2012
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
O insustentável preconceito do ser!
Por Rosana Jatobá*
Era o admirável mundo novo! Recém-chegada de Salvador, vinha a convite de uma emissora de TV, para a qual já trabalhava como repórter. Solícitos, os colegas da redação paulistana se empenhavam em promover e indicar os melhores programas de lazer e cultura, onde eu abastecia a alma de prazer e o intelecto de novos conhecimentos.
Era o admirável mundo civilizado! Mentes abertas com alto nível de educação formal. No entanto, logo percebi o ruído no discurso:
- Recomendo um passeio pelo nosso "Central Park", disse um repórter. Mas evite ir ao Ibirapuera nos domingos, porque é uma baianada só!
-Então estarei em casa, repliquei ironicamente.
-Ai, desculpa, não quis te ofender. É força de expressão. Tô falando de um tipo de gente.
-A gente que ajudou a construir as ruas e pontes, e a levantar os prédios da capital paulista?
-Sim, quer dizer, não! Me refiro às pessoas mal-educadas, que falam alto e fazem "farofa" no parque.
-Desculpe, mas outro dia vi um paulistano que, silenciosamente, abriu a janela do carro e atirou uma caixa de sapatos.
-Não me leve a mal, não tenho preconceitos contra os baianos. Aliás, adoro a sua terra, seu jeito de falar....
De fato, percebo que não existe a intenção de magoar. São palavras ou expressões que , de tão arraigadas, passam despercebidas, mas carregam o flagelo do preconceito. Preconceito velado, o que é pior, porque não mostra a cara, não se assume como tal. Difícil combater um inimigo disfarçado.
Descobri que no Rio de Janeiro, a pecha recai sobre os "Paraíba", que, aliás, podem ser qualquer nordestino. Com ou sem a "Cabeça chata", outra denominação usada no Sudeste para quem nasce no Nordeste.
Na Bahia, a herança escravocrata até hoje reproduz gestos e palavras que segregam. Já testemunhei pessoas esfregando o dedo indicador no braço, para se referir a um negro, como se a cor do sujeito explicasse uma atitude censurável.
Numa das conversas que tive com a jornalista Miriam Leitão, ela comentava:
-O Brasil gosta de se imaginar como uma democracia racial, mas isso é uma ilusão. Nós temos uma marcha de carnaval, feita há 40 anos, cantada até hoje. E ela é terrível. Os brancos nunca pensam no que estão cantando. A letra diz o seguinte:
"O teu cabelo não nega, mulata
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega, mulata
Mulata, quero o teu amor".
"É ofensivo", diz Miriam. Como a cor de alguém poderia contaminar, como se fosse doença? E as pessoas nunca percebem.
A expressão "pé na cozinha", para designar a ascendência africana, é a mais comum de todas, e também dita sem o menor constragimento. É o retorno à mentalidade escravocrata, reproduzindo as mazelas da senzala.
O cronista Rubem Alves publicou esta semana na Folha de São Paulo um artigo no qual ressalta:
"Palavras não são inocentes, elas são armas que os poderosos usam para ferir e dominar os fracos. Os brancos norte-americanos inventaram a palavra 'niger' para humilhar os negros. Criaram uma brincadeira que tinha um versinho assim:
'Eeny, meeny, miny, moe, catch a niger by the toe'...que quer dizer, agarre um crioulo pelo dedão do pé (aqui no Brasil, quando se quer diminuir um negro, usa-se a palavra crioulo).
Em denúncia a esse uso ofensivo da palavra , os negros cunharam o slogan 'black is beautiful'. Daí surgiu a linguagem politicamente correta. A regra fundamental dessa linguagem é nunca usar uma palavra que humilhe, discrimine ou zombe de alguém".
Será que na era Obama vão inventar "Pé na Presidência", para se referir aos negros e mulatos americanos de hoje?
A origem social é outro fator que gera comentários tidos como "inofensivos" , mas cruéis. A Nação que deveria se orgulhar de sua mobilidade social, é a mesma que o picha o próprio Presidente de torneiro mecânico, semi-analfabeto. Com relação aos empregados domésticos, já cheguei a ouvir:
- A minha "criadagem" não entra pelo elevador social !
E a complacência com relação aos chamamentos, insultos, por vezes humilhantes, dirigidos aos homossexuais ? Os termos bicha, bichona, frutinha, biba, "viado", maricona, boiola e uma infinidade de apelidos, despertam risadas. Quem se importa com o potencial ofensivo?
Mulher é rainha no dia oito de março. Quando se atreve a encarar o trânsito, e desagrada o código masculino, ouve frequentemente:
- Só podia ser mulher! Ei, dona Maria, seu lugar é no tanque!
Dependendo do tom do cabelo, demonstrações de desinformação ou falta de inteligência, são imediatamente imputadas a um certo tipo feminino:
-Só podia ser loira!
Se a forma de administrar o próprio dinheiro é poupar muito e gastar pouco:
- Só podia ser judeu!
A mesma superficialidade em abordar as características de um povo se aplica aos árabes. Aqui, todos eles viram turcos. Quem acumula quilos extras é motivo de chacota do tipo: rolha de poço, polpeta, almôndega, baleia ...
Gosto muito do provérbio bíblico, legado do Cristianismo: "O mal não é o que entra, mas o que sai da boca do homem". Invoco também a doutrina da Física Quântica, que confere às palavras o poder de ratificar ou transformar a realidade. São partículas de energia tecendo as teias do comportamento humano.
A liberdade de escolha e a tolerância das diferenças resumem o Princípio da Igualdade, sem o qual nenhuma sociedade pode ser Sustentável. O preconceito nas entrelinhas é perigoso, porque , em doses homeopáticas, reforça os estigmas e aprofunda os abismos entre os cidadãos. Revela a ignorância e alimenta o monstro da maldade.
Até que um dia um trabalhador perde o emprego, se torna um alcoólatra, passa a viver nas ruas e amanhece carbonizado:
-Só podia ser mendigo!
No outro dia, o motim toma conta da prisão, a polícia invade, mata 111 detentos, e nem a canção do Caetano Veloso é capaz de comover:
-Só podia ser bandido!
Somos nós os responsáveis pela construção do ideal de civilidade aqui em São Paulo, no Rio, na Bahia, em qualquer lugar do mundo. É a consciência do valor de cada pessoa que eleva a raça humana e aflora o que temos de melhor para dizer uns aos outros.
PS: Fui ao Ibirapuera num domingo e encontrei vários conterrâneos.
* Rosana Jatobá - jornalista, graduada em Direito e Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da Universidade de São Paulo.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Lições de um cão
Se um cachorro fosse o seu professor, você aprenderia coisas assim:
*Quando alguém que você ama chega em casa, corra ao seu encontro.
*Nunca perca uma oportunidade de ir passear.
*Permita-se experimentar o ar fresco do vento no seu rosto.
*Mostre aos outros que estão invadindo o seu território.
*Tire uma sonequinha no meio do dia e espreguice antes de levantar.
*Corra, pule e brinque todos os dias.
*Tente se dar bem com o próximo e deixe as pessoas te tocarem.
*Não morda quando um simples rosnado resolve a situação.
*Em dias quentes, pare e role na grama, beba bastante líquidos e deite debaixo da sombra de uma árvore.
*Quando você estiver feliz, dance e balance todo o seu corpo.
*Não importa quantas vezes o outro te magoa, não se sinta culpado...volte e faça as pazes novamente.
*Aproveite o prazer de uma longa caminhada.
*Se alimente com gosto e entusiasmo.
*Coma só o suficiente.
*Seja leal.
Direto do
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Amor verdadeiro
... O médico então lhe perguntou:
- Por que a pressa?
E ele respondeu:
- Todos os dias, neste horário, vou visitar minha esposa, que está em um asilo.
E o médico comentou:
- Que bacana! Então vocês matam as saudades, batem papo, namoram um pouquinho!
E o velhinho diz:
- Não! Ela não me reconhece mais, por causa de sua doença.
O médico, surpreso, então pergunta:
- Mas, por que então tanta pressa para vê-la, já que não o reconhece mais?
E, com um sorriso no rosto, o velhinho responde:
- Mas eu a reconheço! Eu sei quem ela é e o que representa na minha vida a tantos anos. Por isso, todos os dias eu a reconquisto, como se cada conquista fosse única e verdadeira. Nisso consiste o verdadeiro amor!
[Autoria desconhecida]
domingo, 9 de outubro de 2011
CRÔNICA: DOMINGO É DIA DE FUTEBOL!
Por Bruno Coriolano de Almeida Costa*
Domingo é mesmo um dia diferente na vida de todo brasileiro que se prese; é dia sagrado para quem tem sangue tupiniquim na veia. Não seria diferente para Reginaldo, um flamenguista apaixonado pelo time. Ele nem sabia pronunciar direito o nome do clube do coração.
– Hoje tem jogo do Framengo – dizia ele.
Não adiantava corrigir. Era o mesmo que mudar a essência; a magia futebolista em seu pensamento limitado. Flamengo e Framengo soavam a mesma coisa na cabeça do Reginaldo.
Chegou então o momento sagrado. Ele tinha que ter certeza de que estava tudo no mesmo lugar, assim como estava no ultimo clássico contra o Vasco da Gama. Reginaldo estava usando a mesma cueca, o mesmo uniforme suado do Mengão e já havia deixado a mulher e os filhos na casa da sogra agorenta, que era vascaína.
Pronto. Olhou para o relógio na parede, que tinha as mesmas baterias do ultimo jogo; ligou a televisão e checou para ver se a esponja de aço, grudada nas anteninhas, estava ajudando a capitar o melhor sinal possível. Não poderia deixar de ouvir as palavras da chamada da partida pronunciadas pelo Galvão Bueno:
– Bom dia amigos da Rede Globo...
Agora vai. É definitivo. Começa com a escalação. Brasileiro que é apaixonado por futebol começa seu ritual pela escalação. É nesse momento que começam as analises também:
– Porra o Sávio não vai jogar. Agora o negocio ficou feio mesmo. – pensou o Reginaldo.
No meio do jogo o Reginaldo já estava quase maluco porque Flamengo atacava, atacava e a bola não entrava. O goleiro adversário parecia uma muralha que não permitia passar nem o vento.
Intervalo. Reginaldo não ficava quieto. É nesse momento que todo brasileiro apaixonado por futebol começa a fazer suas promessas. Agora todos lembram que existe um Deus que pode servir de reforço para o time. Muitos não têm nem certeza, mas para ganhar o jogo vale tudo. Tudo mesmo.
– Se o Framengo ganhar, eu paro de beber às segundas-feiras! – prometeu Reginaldo.
Começa o segundo tempo e o Flamengo volta pior. Não consegue mais se encontrar em campo e toma o primeiro gol. Reginaldo fica desesperado e inicia o processo de arrependimento da promessa que fizera.
– Porra de promessa que nada. Eu prometi ficar um dia na semana sem beber se o meu Framengo ganhasse... Prometi deixar de beber toda segunda-feira. Você sabe o que isso significa Deus? – falava ele de joelhos fazendo pose de reza e olhando para cima como se estivesse realmente vendo o Senhor.
Coincidência ou não, o Mengão empata e de tanto gritar, Reginaldo esquece de que estava há pouco tempo implorando por aquele mísero golzinho e deixa a conversa com o Divino de lado.
Finalzinho do jogo, o Flamengo estava na pressão e Reginaldo com a cabeça atolada no travesseiro. Nesse momento, sua mulher, que voltara mais cedo para casa, fica assustada com o estado da sala: está tudo bagunçado e cheia de lata vazias de cervejas ao redor do sofá.
– Você está maluco, Reginaldo da Silva? – esbravejou a mulher.
Quando se levantava, tomado pelo susto de ser pego de supetão, Reginaldo se vira para a mulher e pergunta:
– O que você está fazendo aqui uma hora dessas?
Nesse momento o Flamengo toma o gol que decidiria o jogo. Resultado final: Flamengo é derrotado.
Como todo brasileiro, Reginaldo procura alguém para por a culpa pelo insucesso do seu time do coração.
– A culpa foi sua. Se você não tivesse chegado na hora errada, o Framengo teria pelo menos empatado.
Depois do jantar em família, Reginaldo se despediu de todos, entrou no quarto e deitou na cama. Depois de passar horas deitado ao lado da mulher na cama fitando o teto, segundo antes de dormir, disse:
– Pelo menos vou continuar bebendo minha cervejinha nas segundas-feiras!
A mulher obviamente não entendeu nada. Quando pensou em perguntar ao marido o que ele queria dizer, o mesmo já estava roncando. O Flamengo perdeu, mas domingo que vem tem outra partida. Já são três domingos seguidos que o Flamengo do Reginaldo perde e ele ainda não parou de beber nem na segunda-feira, terça-feira e quarta-feira. Ah, homem de sorte esse Reginaldo!
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terça-feira, 27 de setembro de 2011
O espetáculo da vida
Que você seja um grande empreendedor. Quando empreender,não tenha medo de falhar. Quando falhar, não tenha receio de chorar. Quando chorar, repense a sua vida, mas não recue. Dê sempre uma nova chance a si mesmo.
Saiba que o maior carrasco do ser humano é ele mesmo. Não seja escravo dos seus pensamentos negativos. Liberte-se da pior prisão do mundo: o cárcere da emoção. O destino raramente é inevitável, mas sim uma escolha. Escolha ser um ser humano consciente, livre e inteligente.
Sua vida é mais importante do que todo o ouro do mundo. Mais dela que as estrelas: obras-prima do Autor de vida. Apesar dos seus defeitos, você não é um número na multidão. Ninguém é igual a você no palco da vida. você é um ser humano insubstituível.
Jamais desista das pessoas que ama. Jamais desista de ser feliz. Lute sempre pelos seus sonhos. Seja profundamente apaixonado pela vida é um espetáculo imperdível.
Augusto Cury
sábado, 24 de setembro de 2011
Parque das Imbecilidades
Por José Walter Silva*
Bem Vindos ao “Parque” das Imbecilidades!
Amo meu país, minha terra, minha gente, nordestino de origem, mente e coração! Brasileiro! Mas tem horas que vejo aberrações que não suporto, e única saída é escrever e ler coisas boas depois são minhas vacinas para não diluir meu cérebro em tanto ácido da idiotice!
As frases e palavrinhas de ordem são:
As frases e palavrinhas de ordem são:
Corpos sarados. Tradução= gente bombada, mulheres masculinizadas,
Celebridades. Tradução= qualquer pessoa que tenha chance de ir para reality shows.
Fama. Tradução= condição de outrora de pessoas ilustres e grandes artistas, hoje prostituída pela mídia, tem como senha corpo sarado, bunda e peitos de silicone e o mínimo de pudor, faz se presente em saída de reality de efeito curto.
Beleza. Tradução= subjetivo, olhar da mídia, moeda de troca, ilusão, tem prazo de validade.
Dinheiro. Tradução= sinônimo de felicidade, compra pessoas em calçadas e programas de TV.
Ser chique. Tradução= tudo que a TV e revistas afirmar que é!
Botox. Tradução= necessário para quem não aceita a idade e não aceita envelhecer.
Silicone. Tradução= essencial para a sociedade corpólotra e preguiçosa.
Lipoaspiração. Tradução= veneno artificial que tem na bula falsa, beleza e juventude.
Dietas magicas. Tradução= sonho de parte significativa da humanidade e ajuda vender revistas.
Reality shows. Tradução= engrenagem criada para diminuir a função cerebral, ajuda a ridicularizar pessoas e enaltecer gente idiota, servem também para mulheres saradas pousarem nuas após sua saída, mas em alguns casos precisam sair com jogadores famosos, artistas decadentes, também participam, tem efeito magico midiático de curta duração e milhões de pessoas pagando e assistindo essa merda no Brasil!
Desculpem se meu texto é esculachado, mas só prometo piorar um pouco da próxima!
“Dos filhos deste solo és mãe gentil pátria amada Brasil”...
José Walter Silva é graduado em Ciências Sociais pela UERN e pós-graduado em Gestão Ambiental pela FIP. É professor, músico, cantor e compositor. E coordena, na cidade de Mossoró, o projeto Artes vs Cultura do Lixo.
Mais informações: http://jose.walter.zip.net
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
O tempo da primavera em nós
Por Cléo Busatto*
Para saudar a primavera tratei as plantas. Cortei os galhos secos. Revirei a terra e acrescentei húmus. Lavei as folhas, retirei a poeira. No inverno não é bom mexer com elas. Preferem ficar quietinhas e recolhidas. A energia se volta para dentro. Por fora parecem feias e sem vida. Mas lá, no interior escuro, algo se processa. É tempo de preparar um novo galho, que expandirá seu brilho na forma de uma nova folha, flor, fruto. Quando chega a primavera, a natureza sabe que é tempo de vir para fora em toda a sua plenitude, mostrar a beleza que carrega em si, construída lentamente, num processo silencioso e continuo.
O mito nos conta, que a deusa Perséfone, quando jovem, foi raptada por Hades. Deméter, sua mãe e senhora da terra e das colheitas, fez um trato com o deus do mundo subterrâneo. Eles acordam que durante seis meses a jovem ficaria com ele, no mundo de dentro e depois, por outros seis meses, permaneceria na companhia da mãe, no mundo de fora. Quando ela chega à superfície, tudo floresce e madura. Quando ela volta para Hades, a natureza se contrai e se volta para o interior.
Cuidar do jardim metaforiza o ato me cuidar, para fazer a primavera acontecer em mim. No meu inverno, tempo de recolhimento, calada eu gero, o que potencialmente já existe. Quando a primavera se aproxima, eu também devo limpar minhas sujeiras que impedem o livre respirar, cortar o galho que não tem mais seiva, me adubar com terra boa e nutrientes, renovar a consciência dos ciclos da natureza. Tudo nasce, cresce e morre. Até um pensamento, uma forma de se olhar.
Primavera é tempo de se florir, deixar surgir novas ideias, novas formas de se lidar com as coisas, de desapegar e permitir que o belo que nos habita se espalhe na superfície. Tempo de se maravilhar com a vida, que explode em cores e perfumes, se deixar tocar pelo sonho que origina o movimento para o novo. É tempo de ver as coisas com os olhos da alma, e se assombrar com o que poderá se enxergar.
Cuidar do jardim metaforiza o ato me cuidar, para fazer a primavera acontecer em mim. No meu inverno, tempo de recolhimento, calada eu gero, o que potencialmente já existe. Quando a primavera se aproxima, eu também devo limpar minhas sujeiras que impedem o livre respirar, cortar o galho que não tem mais seiva, me adubar com terra boa e nutrientes, renovar a consciência dos ciclos da natureza. Tudo nasce, cresce e morre. Até um pensamento, uma forma de se olhar.
Primavera é tempo de se florir, deixar surgir novas ideias, novas formas de se lidar com as coisas, de desapegar e permitir que o belo que nos habita se espalhe na superfície. Tempo de se maravilhar com a vida, que explode em cores e perfumes, se deixar tocar pelo sonho que origina o movimento para o novo. É tempo de ver as coisas com os olhos da alma, e se assombrar com o que poderá se enxergar.
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* Cléo Busatto é escritora com obras literárias para crianças. Também produz e narra histórias em CD-ROMs. O material é resultado da sua pesquisa sobre narração oral no meio digital. Mestre em Teoria Literária pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e mediadora em projetos sobre oralidade, leitura e literatura infanto-juvenil. Publicou livros teóricos sobre oralidade. Nos últimos cinco anos capacitou mais de 50.000 pessoas. Atua como narradora oral. Suas histórias já foram ouvidas por mais de 75.000 pessoas no Brasil e exterior.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Muito cedo para decidir
Rubem Alves
Gandhi se casou menino. Foi casado menino. O contrato, foram os grandes que assinaram. Os dois nem sabiam direito o que estava acontecendo, ainda não haviam completado 10 anos de idade, estavam interessados em brincar. Ninguém era culpado: todo mundo estava sendo levado de roldão pelas engrenagens dessa máquina chamada sociedade, que tudo ignora sobre a felicidade e vai moendo as pessoas nos seus dentes. Os dois passaram o resto da vida se arrastando, pesos enormes, cada um fazendo a infelicidade do outro.
Vocês dirão que felizmente esse costume nunca existiu entre nós: obrigar crianças que nada sabem a entrar por caminhos nos quais terão de andar pelo resto da vida é coisa muito cruel e... burra! Além disso já existe entre nós remédio para casamento que não dá certo.
Antigamente, quando se queria dizer que uma decisão não era grave e podia ser desfeita, dizia-se: "isso não é casamento!". Naquele tempo, sim, casamento era decisão irremediável, para sempre, até que a morte os separasse, eterna comunhão de bens e comunhão de males. Mas agora os casamentos fazem-se e desfazem-se até mesmo contra a vontade do Papa, e os dois ficam livres para começar tudo de novo...
Pois dentro de poucos dias vai acontecer com nossos adolescentes coisa igual ou pior do que aconteceu com o Gandhi e a mulher dele, e ninguém se horroriza, ninguém grita, os pais até ajudam, concordam, empurram, fazem pressão, o filho não quer tomar a decisão, refuga, está com medo. "Tomar uma decisão para o resto da minha vida, meu pai! Não posso agora!" e o pai e a mãe perdem o sono, pensando que há algo errado com o menino ou a menina, e invocam o auxílio de psicólogos para ajudar...
Está chegando para muitos o momento terrível do vestibular, quando vão ser obrigados por uma máquina, do mesmo jeito como o foram Gandhi e Casturbai (era esse o nome da menina), a escrever num espaço em branco o nome da profissão que vão ter.
Do mesmo jeito não: a situação é muito mais grave. Porque casar e descasar são coisas que se resolvem rápido. Às vezes, antes de se descasar de uma ou de um, a pessoa já está com uma outra ou um outro. Mas, com a profissão não tem jeito de fazer assim. Pra casar, basta amar.
Mas na profissão, além de amar tem de saber. E o saber leva tempo pra crescer.
A dor que os adolescentes enfrentam agora é que, na verdade, eles não têm condições de saber o que é que eles amam. Mas a máquina os obriga a tomar uma decisão para o resto da vida, mesmo sem saber.
Saber que a gente gosta disso e gosta daquilo é fácil. O difícil é saber qual, dentre todas, é aquela de que a gente gosta supremamente. Pois, por causa dela, todas as outras terão de ser abandonadas. A isso que se dá o nome de "vocação"; que vem do latim, vocare, que quer dizer "chamar". É um chamado, que vem de dentro da gente, o sentimento de que existe alguma coisa bela, bonita e verdadeira à qual a gente deseja entregar a vida.
Entregar-se a uma profissão é igual a entrar para uma ordem religiosa. Os religiosos, por amor a Deus, fazem votos de castidade, pobreza e obediência. Pois, no momento em que você escrever a palavra fatídica no espaço em branco, você estará fazendo também os seus votos de dedicação total á sua ordem. Cada profissão é uma ordem religiosa, com seus papas, bispos, catecismos, pecados e inquisições.
Se você disser que a decisão não é tão séria assim , que o que está em jogo é só o aprendizado de um ofício para se ganhar a vida e, possivelmente, ficar rico, eu posso até dizer: "Tudo bem! Só que fico com dó de você! Pois não existe coisa mais chata que trabalhar só para ganhar dinheiro."
É o mesmo que dizer que, no casamento, amar não importa. Que o que importa é se o marido — ou a mulher — é rico. Imagine-se agora, nessa situação: você é casado ou casada, não gosta do marido ou da mulher, mas é obrigado a, diariamente, fazer carinho, agradar e fazer amor. Pode existir coisa mais terrível que isso? Pois é a isso que está obrigada uma pessoa, casada com uma profissão sem gostar dela. A situação é mais terrível que no casamento, pois no casamento sempre existe o recurso de umas infidelidades marginais. Mas o profissional, pobrezinho, gozará do seu direito de infidelidade com que outra profissão?
Não fique muito feliz se o seu filho já tem idéias claras sobre o assunto. Isso não é sinal de superioridade. Significa, apenas, que na mesa dele há um prato só. Se ele só tem nabos cozidos para comer, é claro que a decisão já está feita: comerá nabos cozidos e engordará com eles. A dor e a indecisão vêm quando há muitos pratos sobre a mesa e só se pode escolher um.
Um conselho aos pais e aos adolescentes: não levem muito a sério esse ato de colocar a profissão naquele lugar terrível. Aceitem que é muito cedo para uma decisão tão grave. Considerem que é possível que vocês, daqui a um ou dois anos, mudem de idéia. Eu mudei de idéia várias vezes, o que me fez muito bem. Se for necessário, comecem de novo. Não há pressa. Que diferença faz receber o diploma um ano antes ou um ano depois?
Em tudo isso o que causa a maior ansiedade não é nada sério: é aquela sensação boba que domina pais e filhos de que a vida é uma corrida e que é preciso sair correndo na frente para ganhar. Dá uma aflição danada ver os outros começando a corrida, enquanto a gente fica para trás.
Mas a vida não é uma corrida em linha reta. Quando se começa a correr na direção errada, quanto mais rápido for o corredor, mais longe ele ficará do ponto de chegada. Lembrem-se daquele maravilhoso aforismo de T. S. Eliot: "Num país de fugitivos os que andam na direção contrária parecem estar fugindo."
Assim, Raquel, não se aflija. A vida é uma ciranda com muitos começos.
Coloque lá a profissão que você julgar a mais de acordo com o seu coração, sabendo que nada é definitivo. Nem o casamento. Nem a profissão. E nem a própria vida...
Vocês dirão que felizmente esse costume nunca existiu entre nós: obrigar crianças que nada sabem a entrar por caminhos nos quais terão de andar pelo resto da vida é coisa muito cruel e... burra! Além disso já existe entre nós remédio para casamento que não dá certo.
Antigamente, quando se queria dizer que uma decisão não era grave e podia ser desfeita, dizia-se: "isso não é casamento!". Naquele tempo, sim, casamento era decisão irremediável, para sempre, até que a morte os separasse, eterna comunhão de bens e comunhão de males. Mas agora os casamentos fazem-se e desfazem-se até mesmo contra a vontade do Papa, e os dois ficam livres para começar tudo de novo...
Pois dentro de poucos dias vai acontecer com nossos adolescentes coisa igual ou pior do que aconteceu com o Gandhi e a mulher dele, e ninguém se horroriza, ninguém grita, os pais até ajudam, concordam, empurram, fazem pressão, o filho não quer tomar a decisão, refuga, está com medo. "Tomar uma decisão para o resto da minha vida, meu pai! Não posso agora!" e o pai e a mãe perdem o sono, pensando que há algo errado com o menino ou a menina, e invocam o auxílio de psicólogos para ajudar...
Está chegando para muitos o momento terrível do vestibular, quando vão ser obrigados por uma máquina, do mesmo jeito como o foram Gandhi e Casturbai (era esse o nome da menina), a escrever num espaço em branco o nome da profissão que vão ter.
Do mesmo jeito não: a situação é muito mais grave. Porque casar e descasar são coisas que se resolvem rápido. Às vezes, antes de se descasar de uma ou de um, a pessoa já está com uma outra ou um outro. Mas, com a profissão não tem jeito de fazer assim. Pra casar, basta amar.
Mas na profissão, além de amar tem de saber. E o saber leva tempo pra crescer.
A dor que os adolescentes enfrentam agora é que, na verdade, eles não têm condições de saber o que é que eles amam. Mas a máquina os obriga a tomar uma decisão para o resto da vida, mesmo sem saber.
Saber que a gente gosta disso e gosta daquilo é fácil. O difícil é saber qual, dentre todas, é aquela de que a gente gosta supremamente. Pois, por causa dela, todas as outras terão de ser abandonadas. A isso que se dá o nome de "vocação"; que vem do latim, vocare, que quer dizer "chamar". É um chamado, que vem de dentro da gente, o sentimento de que existe alguma coisa bela, bonita e verdadeira à qual a gente deseja entregar a vida.
Entregar-se a uma profissão é igual a entrar para uma ordem religiosa. Os religiosos, por amor a Deus, fazem votos de castidade, pobreza e obediência. Pois, no momento em que você escrever a palavra fatídica no espaço em branco, você estará fazendo também os seus votos de dedicação total á sua ordem. Cada profissão é uma ordem religiosa, com seus papas, bispos, catecismos, pecados e inquisições.
Se você disser que a decisão não é tão séria assim , que o que está em jogo é só o aprendizado de um ofício para se ganhar a vida e, possivelmente, ficar rico, eu posso até dizer: "Tudo bem! Só que fico com dó de você! Pois não existe coisa mais chata que trabalhar só para ganhar dinheiro."
É o mesmo que dizer que, no casamento, amar não importa. Que o que importa é se o marido — ou a mulher — é rico. Imagine-se agora, nessa situação: você é casado ou casada, não gosta do marido ou da mulher, mas é obrigado a, diariamente, fazer carinho, agradar e fazer amor. Pode existir coisa mais terrível que isso? Pois é a isso que está obrigada uma pessoa, casada com uma profissão sem gostar dela. A situação é mais terrível que no casamento, pois no casamento sempre existe o recurso de umas infidelidades marginais. Mas o profissional, pobrezinho, gozará do seu direito de infidelidade com que outra profissão?
Não fique muito feliz se o seu filho já tem idéias claras sobre o assunto. Isso não é sinal de superioridade. Significa, apenas, que na mesa dele há um prato só. Se ele só tem nabos cozidos para comer, é claro que a decisão já está feita: comerá nabos cozidos e engordará com eles. A dor e a indecisão vêm quando há muitos pratos sobre a mesa e só se pode escolher um.
Um conselho aos pais e aos adolescentes: não levem muito a sério esse ato de colocar a profissão naquele lugar terrível. Aceitem que é muito cedo para uma decisão tão grave. Considerem que é possível que vocês, daqui a um ou dois anos, mudem de idéia. Eu mudei de idéia várias vezes, o que me fez muito bem. Se for necessário, comecem de novo. Não há pressa. Que diferença faz receber o diploma um ano antes ou um ano depois?
Em tudo isso o que causa a maior ansiedade não é nada sério: é aquela sensação boba que domina pais e filhos de que a vida é uma corrida e que é preciso sair correndo na frente para ganhar. Dá uma aflição danada ver os outros começando a corrida, enquanto a gente fica para trás.
Mas a vida não é uma corrida em linha reta. Quando se começa a correr na direção errada, quanto mais rápido for o corredor, mais longe ele ficará do ponto de chegada. Lembrem-se daquele maravilhoso aforismo de T. S. Eliot: "Num país de fugitivos os que andam na direção contrária parecem estar fugindo."
Assim, Raquel, não se aflija. A vida é uma ciranda com muitos começos.
Coloque lá a profissão que você julgar a mais de acordo com o seu coração, sabendo que nada é definitivo. Nem o casamento. Nem a profissão. E nem a própria vida...
O escritor responde a uma estudante angustiada e dá aos pais motivos para meditarem sobre a escolha da profissão.
O texto acima foi extraído do livro "Estórias de quem gosta de ensinar — O fim dos Vestibulares", editora Ars Poetica — São Paulo, 1995, pág. 31.
sábado, 17 de setembro de 2011
Vocabulário Feminino
Se eu tivesse que escolher uma palavra – apenas uma – para ser item obrigatório no vocabulário da mulher de hoje, essa palavra seria um verbo de quatro sílabas: descomplicar. Depois de infinitas (e imensas) conquistas, acho que está passando da hora de aprendermos a viver com mais leveza: exigir menos dos outros e de nós próprias, cobrar menos, reclamar menos, carregar menos culpa, olhar menos para o espelho. Descomplicar talvez seja o atalho mais seguro para chegarmos à tão falada qualidade de vida que queremos – e merecemos – ter.
Mas há outras palavras que não podem faltar no kit existencial da mulher moderna. Amizade, por exemplo. Acostumadas a concentrar nossos sentimentos (e nossa energia...) nas relações amorosas, acabamos deixando as amigas em segundo plano. E nada, mas nada mesmo, faz tão bem para uma mulher quanto a convivência com as amigas. Ir ao cinema com elas (que gostam dos mesmos filmes que a gente), sair sem ter hora para voltar, compartilhar uma caipivodca de morango e repetir as histórias que já nos contamos mil vezes – isso, sim, faz bem para a pele. Para a alma, então, nem se fala. Ao menos uma vez por mês, deixe o marido ou o namorado em casa, prometa-se que não vai ligar para ele nem uma vez (desligue o celular, se for preciso) e desfrute os prazeres que só uma boa amizade consegue proporcionar.
E, já que falamos em desligar o celular, incorpore ao seu vocabulário duas palavras que têm estado ausentes do cotidiano feminino: pausa e silêncio. Aprenda a parar, nem que seja por cinco minutos, três vezes por semana, duas vezes por mês, ou uma vez por dia – não importa – e a ficar em silêncio. Essas pausas silenciosas nos permitem refletir, contar até 100 antes de uma decisão importante, entender melhor os próprios sentimentos, reencontrar a serenidade e o equilíbrio quando é preciso.
Também abra espaço, no vocabulário e no cotidiano, para o verbo rir. Não há creme anti-idade nem botox que salve a expressão de uma mulher mal-humorada. Azedume e amargura são palavras que devem ser banidas do nosso dia a dia. Se for preciso, pegue uma comédia na locadora, preste atenção na conversa de duas crianças, marque um encontro com aquela amiga engraçada – faça qualquer coisa, mas ria. O riso nos salva de nós mesmas, cura nossas angústias e nos reconcilia com a vida.
Quanto à palavra dieta, cuidado: mulheres que falam em regime o tempo todo costumam ser péssimas companhias. Deixe para discutir carboidratos e afins no banheiro feminino ou no consultório do endocrinologista. Nas mesas de restaurantes, nem pensar. Se for para ficar contando calorias, descrevendo a própria culpa e olhando para a sobremesa do companheiro de mesa com reprovação e inveja, melhor ficar em casa e desfrutar sua salada de alface e seu chá verde sozinha.
Uma sugestão? Tente trocar a obsessão pela dieta por outra palavra que, essa sim, deveria guiar nossos atos 24 horas por dia: gentileza. Ter classe não é usar roupas de grife: é ser delicada. Saber se comportar é infinitamente mais importante do que saber se vestir. Resgate aquele velho exercício que anda esquecido: aprenda a se colocar no lugar do outro, e trate-o como você gostaria de ser tratada, seja no trânsito, na fila do banco, na empresa onde trabalha, em casa, no supermercado, na academia.
E, para encerrar, não deixe de conjugar dois verbos que deveriam ser indissociáveis da vida: sonhar e recomeçar. Sonhe com aquela viagem ao exterior, aquele fim de semana na praia, o curso que você ainda vai fazer, a promoção que vai conquistar um dia, aquele homem que um dia (quem sabe?) ainda vai ser seu, sonhe que está beijando o Richard Gere... sonhar é quase fazer acontecer. Sonhe até que aconteça. E recomece, sempre que for preciso: seja na carreira, na vida amorosa, nos relacionamentos familiares. A vida nos dá um espaço de manobra: use-o para reinventar a si mesma.
E, por último (agora, sim, encerrando), risque do seu Aurélio a palavra perfeição. O dicionário das mulheres interessantes inclui fragilidades, inseguranças, limites. Pare de brigar com você mesma para ser a mãe perfeita, a dona de casa impecável, a profissional que sabe tudo, a esposa nota mil. Acima de tudo, elimine de sua vida o desgaste que é tentar ter coxas sem celulite, rosto sem rugas, cabelos que não arrepiam, bumbum que encara qualquer biquíni. Mulheres reais são mulheres imperfeitas. E mulheres que se aceitam como imperfeitas são mulheres livres. Viver não é (e nunca foi) fácil, mas, quando se elimina o excesso de peso da bagagem (e a busca da perfeição pesa toneladas), a tão sonhada felicidade fica muito mais possível.
Mas há outras palavras que não podem faltar no kit existencial da mulher moderna. Amizade, por exemplo. Acostumadas a concentrar nossos sentimentos (e nossa energia...) nas relações amorosas, acabamos deixando as amigas em segundo plano. E nada, mas nada mesmo, faz tão bem para uma mulher quanto a convivência com as amigas. Ir ao cinema com elas (que gostam dos mesmos filmes que a gente), sair sem ter hora para voltar, compartilhar uma caipivodca de morango e repetir as histórias que já nos contamos mil vezes – isso, sim, faz bem para a pele. Para a alma, então, nem se fala. Ao menos uma vez por mês, deixe o marido ou o namorado em casa, prometa-se que não vai ligar para ele nem uma vez (desligue o celular, se for preciso) e desfrute os prazeres que só uma boa amizade consegue proporcionar.
E, já que falamos em desligar o celular, incorpore ao seu vocabulário duas palavras que têm estado ausentes do cotidiano feminino: pausa e silêncio. Aprenda a parar, nem que seja por cinco minutos, três vezes por semana, duas vezes por mês, ou uma vez por dia – não importa – e a ficar em silêncio. Essas pausas silenciosas nos permitem refletir, contar até 100 antes de uma decisão importante, entender melhor os próprios sentimentos, reencontrar a serenidade e o equilíbrio quando é preciso.
Também abra espaço, no vocabulário e no cotidiano, para o verbo rir. Não há creme anti-idade nem botox que salve a expressão de uma mulher mal-humorada. Azedume e amargura são palavras que devem ser banidas do nosso dia a dia. Se for preciso, pegue uma comédia na locadora, preste atenção na conversa de duas crianças, marque um encontro com aquela amiga engraçada – faça qualquer coisa, mas ria. O riso nos salva de nós mesmas, cura nossas angústias e nos reconcilia com a vida.
Quanto à palavra dieta, cuidado: mulheres que falam em regime o tempo todo costumam ser péssimas companhias. Deixe para discutir carboidratos e afins no banheiro feminino ou no consultório do endocrinologista. Nas mesas de restaurantes, nem pensar. Se for para ficar contando calorias, descrevendo a própria culpa e olhando para a sobremesa do companheiro de mesa com reprovação e inveja, melhor ficar em casa e desfrutar sua salada de alface e seu chá verde sozinha.
Uma sugestão? Tente trocar a obsessão pela dieta por outra palavra que, essa sim, deveria guiar nossos atos 24 horas por dia: gentileza. Ter classe não é usar roupas de grife: é ser delicada. Saber se comportar é infinitamente mais importante do que saber se vestir. Resgate aquele velho exercício que anda esquecido: aprenda a se colocar no lugar do outro, e trate-o como você gostaria de ser tratada, seja no trânsito, na fila do banco, na empresa onde trabalha, em casa, no supermercado, na academia.
E, para encerrar, não deixe de conjugar dois verbos que deveriam ser indissociáveis da vida: sonhar e recomeçar. Sonhe com aquela viagem ao exterior, aquele fim de semana na praia, o curso que você ainda vai fazer, a promoção que vai conquistar um dia, aquele homem que um dia (quem sabe?) ainda vai ser seu, sonhe que está beijando o Richard Gere... sonhar é quase fazer acontecer. Sonhe até que aconteça. E recomece, sempre que for preciso: seja na carreira, na vida amorosa, nos relacionamentos familiares. A vida nos dá um espaço de manobra: use-o para reinventar a si mesma.
E, por último (agora, sim, encerrando), risque do seu Aurélio a palavra perfeição. O dicionário das mulheres interessantes inclui fragilidades, inseguranças, limites. Pare de brigar com você mesma para ser a mãe perfeita, a dona de casa impecável, a profissional que sabe tudo, a esposa nota mil. Acima de tudo, elimine de sua vida o desgaste que é tentar ter coxas sem celulite, rosto sem rugas, cabelos que não arrepiam, bumbum que encara qualquer biquíni. Mulheres reais são mulheres imperfeitas. E mulheres que se aceitam como imperfeitas são mulheres livres. Viver não é (e nunca foi) fácil, mas, quando se elimina o excesso de peso da bagagem (e a busca da perfeição pesa toneladas), a tão sonhada felicidade fica muito mais possível.
Leila Ferreira*
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Leila Ferreira é jornalista, entrevistadora, colaboradora da Revista Marie Clarie e escritora. autora do livro “Mulheres: por que será que elas…?” (Editora Globo).
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
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