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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Quinta Romântica



Aventuras do Menino Danta e seu amigo Guerra

Por William Guerra*



CAPÍTULO XXXIII

         A Delegacia nunca tinha ido tão assediada.

         Era quase toda Verdejante em peso tentando compreender o que se passava. Afinal encontraram uma pista: um cavalo preto com todos os seus apetrechos e adornos. Selado e pronto para correr no meio do mundo.

         Ouvia-se o vozeirão do delegado Luiz Marchante:

         - Silêncio! Deixa o menino falar. Conta a sua história!

         O zum zum zum era geral. Um menino? Que tinha a ver um menino com o cavalo encontrado?

         Era o que se passava na cabeça das pessoas presentes. O que queriam agora, todos que se encontravam naquelas imediações, era que danado de menino era esse. Quem, afinal, é esse menino? E o que tem a ver em toda essa situação na morte do coronel Chico Pinto?

         O silêncio reinou na sala do delegado e, assim, puderam ouvir bem claramente o menino falar:

         - Eu fui andando pela parede do muro do sobrado. Estava querendo matar uns calangos com aminha boladeira. E vi o cavalo lá, amarrado.

         O delegado apressado, indagou:

         - Você estava sozinho? Depois que viu o cavalo, qual a sua providência?

         O menino respondeu:

         - Era só eu mesmo. Sozinho. Quando avistei o cavalo desci correndo fui avisar a minha mãe.

         Todos se entreolharam. Ninguém sabia o que dizer. Mas o menino continuou:

         - O cavalo estava com a mochila comendo milho. Aí, avistei uma pessoa se mexendo por trás da porta da cozinha.

         Nesse ponto a atenção foi redobrada pelos presentes. Vale salientar que na sala, além do delegado, estavam: o prefeito Lucas Pinto, padre Benedito, Adrião Bezerra e a mãe do garoto que veio a desvendar quem matara o Coronel Chico Pinto.

         O perfeito Lucas Pinto, apressou na pergunta:

         -Deu para saber quem era a pessoa?

         O menino colheu os ombros, respondeu:

         - Uma mulher.

         Ouviu-se um “oh” sonoro passando de boca em boca até lá fora repercutiu no meio da multidão.

         Adrião Bezerra, mais astuto, batendo com a bengala no chão, olhando para o peralta e ainda acrescentou a seguinte pergunta:

         - Mulher nova, ou mulher velha?

         A resposta de menor veio imediatamente:

         - Nem velha, nem nova.

         Houve um acesso de riso entre as pessoas. Tudo que Adrião Bezerra queria despistar, descontrair, porque o interrogado, menor de idade, poderia ser pressionado para enveredar noutros caminhos.

         Lá fora Danta e Wilson escutavam o que os demais falavam, depois de cada resposta do menino que se encontrava em interrogação policial. E, com cada comentário, Wilson exclamava;

         - Vixe!

         Danta calado. Esperando o desfecho de tudo.

         Padre Benedito, batendo na mesa, argumentou:

         - Delegado, o negócio é o seguinte: o senhor vai até à casa de dona Socorrinha e pergunta o que ela fazia naquele sobrado!

         Os olhares, como automaticamente puxados por forças invisíveis, se viraram todos em direção ao padre. O delegado lhe fez a pergunta:

         - Que é que o senhor está insinuando, padre?

         Padre Benedito coçou o local da tonsura no alto da cabeça, respondeu entre irônico e engraçado:

         - É que Socorrinha tem um chamego com Roldão...

         Aí a admiração foi mais intensa ainda. O prefeito Lucas Pinto, voz meio fanhosa conseguiu gritar:

         - Que!?
        
         O padre riu. Pediu calma. E começou a relatar:

         - Sinhazinha namora Roldão. O cavalo ali pertence a Roldão. Logo, se este menino viu o cavalo de Roldão e uma mulher na porta da cozinha, era Socorrinha que levava comida, não só para Roldão, mas também para o cavalo...

         Rodos ficaram de queixo caído. Que dedução!? Que raciocínio, que inteligência!

         O delegado Luiz Marchante, para não ficar atrás naquela revelação bombástica, tentou se defender:

         - Bem que eu desconfiava. Desde a hora em que a mãe do menino me disse que era um cavalo preto, suspeitei de Roldão. Mas garanto que ainda não sabia que Sinhazinha namorava Roldão.

         Havia um boateiro, que talvez fosse mesmo Elísio Pinto, pai dos mudos, que estando lá dentro, na sala, ouvia o que cada um dizia, corria à uma janela repleta de curiosos e mexericava o que acabara de ouvir, com um detalhe, aumentando em alguns pontos.

         Assim, mesmo os verdejantenses que não conseguiam escutar o que se conversava lá dentro e tudo o que se passava de gestos e contras-gestos, ficavam sabendo na hora, e com riqueza de detalhes.

         Dessa feita, cá, do lado de fora da delegacia, multidão em alvoroço, corriam os mais variados comentários:

         - Roldão matou Chico Pinto.

         - Mas por quê?

         - Alguém mandou.

         - Quem?

         - Não vou falar mais nada, senão sobra para mim.

         - Pois eu falo: Coronel Dito Saldanha.

         - Não, dizem que foi coronel Luis Leite.

         Nesse grupo de palradores, estavam Danta e Wilson, e este último exclamou:

         - Vixe!

         Mas lá na sala do delegado apesar do valor intenso, a coisa começava a esfriar. Fizeram os planos de interrogarem Socorrinha e obteriam dela a verdade. Pronto. Outro grupo de soldado iria sair à caça de Roldão, que não deveria estar muito longe, a pé pode até que ainda esteja na cidade.

         Assim ficou estabelecido. O escrivão levou a intimação até Socorrinha e ficou marcada a audiência onde se deveriam ouvi-la na parte da tarde daquele mesmo dia. O delegado agradeceu a presença de todos, que voltassem mais tarde e, virando para o menino, falou:

         - O seu nome vai ficar para sempre registrado neste Processo. Se não fosse por você, nunca a gente desvendaria o mistério da morte do Coronel Chico Pinto.

         O menino ficou calado, cabeça baixa. O seu avô, Adrião Bezerra o pegou pela mão e trouxe à porta e, rompendo a multidão, iam os dois caminhando e todos mais curiosos e de olhos arregalados viam aquela cena. Alguém comentou:

         - Este Guerra tá em todas...

         Por incrível que pareça muitos aplaudiam a passagem do garoto conduzido pelo avô. Alguns até passavam a mão em seus cabelos em desalinho. Guerra impassível, nada dizia nada comentava. Apenas seguia no meio da multidão até chegar num ambiente mais aliviado onde estavam Danta e Wilson.

         Guerra foi logo dando um alô aos amigos e uma espécie de desabafo:

         - Ufa...!

         Danta fez a pergunta principal:

         - E aí, contou tudo?

         O amigo convidou os dois para um banho na lagoa. Imediatamente aceito. Mas Wilson queria saber detalhes;

         - Quem matou o coronel Chico Pinto, você sabe?

         Guerra nada dizia. Desciam as barreiras até às margens daquela imensa bacia de água. Ainda Danta insistiu:

         - Conta pelo menos quem matou Chico Pinto?

         Guerra, para deixar os amigos tranqüilos, falou assim:

         - Quem matou Chico Pinto eu não sei. Mas sei que o cavalo que avistei naquele quintal pertence a Roldão. Só.

         - Vixe!

         Foi o único comentário de Wilson. Os três caíram na água.

         Enquanto isso corria nos quatro cantos da cidade a notícia de que fora Roldão o assassino do coronel Chico Pinto. Corria uma patrulha de muitos soldados pelos quatro cantos da cidade vê se pegava o criminoso.

         Restava, porém, aquela indagação no ar: a troco de que, Roldão praticou ato tão perverso?

         Cada um tentava adivinha o que realmente acontecia em Verdejante, nada se sabia ao certo. Mas quem sabe mais tarde Socorrinha dava uma pista? Esta caiu passou a ser prato cheio para as beatas.

         Já se sabia dos comentários das três religiosas mulheres do lugar: Tilde, Cotó e Adofina.

         Adofina:

         - Despudorada!

         Cotó:

         - Nem mesmo deixou o marido defunto esfriar, já esquentando o rabo!

         Tilde:

         - Que pecadora, meu Deus!

         E as três, cada vez que tocavam o nome de Deus acompanhado de alguma pecadora (ou pecador) declarada, se persignavam e ficavam com as mãos postas, como quem implorando perdão ao Criador.

         Socorrinha foi pega de surpresa. Ao receber a intimação tratou de começar a desmentir. Aquele menino malvado filho de Carrinho não viu ninguém. É invenção do cabrito!

         Sua irmã a demoveu de sair acusando. Que dissesse a verdade que tratariam de contratar o advogado rábula, Filástrio Lopes Correia Pinto para defendê-la.

         Assim foi feito. O advogado se comprometeu em acompanhá-la à delegacia e não permitiria que fosse indiciada no Processo. Mas tinha um entrave: Lucas Pinto, o prefeito, irmão do coronel assassinado era quem mandava e desmandava no delgado. Lucas Pinto dizendo: prenda, Luiz Marchante prendia; mas se mandasse soltar, obedecia do mesmo jeito. Maneira que o indiciamento de Socorrinha estava nas mãos do irmão de Chico Pinto, não dependia de defesa de ninguém.

         Todos foram para suas casas almoçar, e como ninguém tinha mesmo o que fazer em Verdejante, muitos curiosos já se encontrava em frente à delegacia para assistirem a chegada de Socorrinha e todos os demais personagens, bem como ouvirem o que ela teria para dizer ao delegado.

         Um emissário, por baixo do pano fora enviado por importante figura ao prefeito. Lucas Pinto ouviu atentamente ao emissário: fazer com que o depoimento de Socorrinha não fizesse parte do Processo, ou seja, excluí-la como co-autora do crime.

         O astuto político, com o dedo indicado no meio dos lábios, querendo dizer que se fizesse silencia, intuiu:

         - Que ganho com isso?

         O outro que preferiu ficar no anonimato, respondeu imediatamente:

         - Apoio político por parte do nosso grupo. O senhor sabe de quem estou falando...

         Lucas Pinto disse que iria pensar até às quinze horas, meia hora antes do depoimento de Socorrinha. Enviaria, também, um emissário à residência do “chefe” que lhe propusera a barganha dizendo se: sim ou se não.

         Apertaram as mãos e o emissário de parte dos que defendiam Socorrinha foi-se. Lucas Pinto ficou pensativo e pensando lá com os seus botões: “Isto diabo, botaram-me numa sinuca de bico esses impostores!”

         Mas assim que se fazia política em Verdejante: engolir sapos para se ter uma vitória. O importante era vencer, não importava como.

         E o prefeito cumpriu o prometido enviando o tal do “emissário” às hostes adversárias levando a sua resposta.

         Danta, Wilson e Guerra também se encontravam nas imediações da delegacia. Guerra ainda era motivo de curiosidade dos verdejantenses, todos tentavam uma prosa com o garoto que desvendou o mistério da morte de Chico Pinto.

         Quinze horas em ponto, sol de rachar e o tempo abafado, previsão de muita chuva mais tarde, chegam à delegacia Socorrinha acompanhada do advogado pro visionado (assim que se explicava), sua irmã, mulher de poderoso comerciante local e todos os demais componentes que, pela manhã, participaram do interrogatório do menino Guerra. Elísio Pinto, o boateiro, desta vez não pôde penetra o recinto, mesmo suplicando ao prefeito, seu parente que intercedesse na sua pretensão. Nada feito. Foi motivo de piadas e zombarias por parte de alguns presentes. Mas, contudo, arranjou um bom local na janela principal, embora o sol fizesse quase ferver o parapeito da mesma.

         Uma notícia percorreu, feito raio no meio da mata, informando que a policia havia capturado Roldão, o traziam, já, rumo à delegacia. O burburinho foi geral. O delegado impôs silencia e começaria, imediatamente, o depoimento de Socorrinha, mas foi impedido, o prefeito falou:

         - Um momento, delegado. Não seria o caso do senhor deixar o depoimento desta testemunha para outra oportunidade, tendo em, vista que se diz por aí que Roldão foi preso?

         O delegado já estava pronto para consentir, foi impedido, também, de falar:

         - Calma! E o que tem a ver o depoimento de Socorrinha com a prisão de Roldão? E não me façam citar aquele famoso ditado!

         Foi a voz de um homem polêmico e teimoso que se ouviu, Adrião Bezerra, para colocar mais lenha na fogueira.

         Pela terceira vez o delegado ia dizer alguma coisa, tomou-lhe a palavra padre Benedito Basilio Alves:

         - Senhor delegado! Estou aqui porque fui convidado para acompanha este caso escabroso e cheio de contradições. Mas se o senhor que deixa-lo mais contraditório ainda, por que não diz logo para todo mundo que o caso está encerrado?

         O delegado pigarreou, retirou o chapéu do panamá da cabe, coçou o cocuruto e:

         - Pronto. Decido: Socorrinha não precisa mais depor, Roldão já deve está chegando para ficar trancafiado. Vamos agora ouvi-lo numa outra oportunidade e remeter o inquérito para a Justiça. Reunião encerrada.

         As discussões tomaram boa parte da tarde. Socorrinha voltou para casa, enquanto o povo saía chateado dizendo:

         - Aí tem marmelada.

         - Tanto de um lado como de outro.

         - Quem morreu foi quem se enterrou.
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DESCULPAS: passamos uns dias sem o e-mail, foi umsufoco,arranjamos ascoisas eagora retomamos a nossa história,que deverá acbar ainda em dezembro. Publicaremos capítulos diariamente: Rokátia e eu publicaremos chamadas no facebook e no Blog. Obrigado.

domingo, 23 de outubro de 2011

Romance de domingo...


Aventuras do Menino Danta e seu amigo Guerra

Por William Guerra*

CAPÍTULO XXXII

         Zé do Bicho logo ajuntou os cambistas, os verdadeiros vendedores da sorte. Cada um dava o seu palpite. Fazia o jogo, arriscando ganhar alguns trocados nos 15 bichos. A chamada fezinha. Milhar, centena, terno de grupo, terno de dezenas, duque, e assim por diante, do 1º ao 5º ou do 1º ao décimo, dependendo do tipo de jogada, mas havia um limite nos montante a ser apostado.

         O resultado viria mesmo pelo correio, via telegrama, da capital do Estado. E era uma festa. Os apostadores e curiosos se aglomeravam em frente ao antigo prédio dos Correios e Telégrafos, na expectativa da chegada do bendito telegrama.

         Lá estavam Raimundo Cabral, o chefe da repartição, mais o telegrafista Cosme Lemos e o carteiro Sebastião Lúcio. Da janela algum deles acenava se já havia chegado o resultado do bicho.

         Daqui a pouco, também, trazendo um enorme saco de lona, vindo de Caraúbas, Lauro Correio, aquele responsável de levar e trazer as correspondências. Saí madrugada ainda com o saco à cavalo até Caraúbas, de lá pegava o trem a Mossoró. Mais tarde voltava com outras correspondências, fazendo o mesmo trajeto de volta.

         Sebastião Lúcio, de família tradicional de jogar no bicho, acenou da janela fazendo com o dedo em sinal de positivo. A turba aplaudia e gritava. Zé do Bicho descia a rua e ia até o sobrado de Filástrio Correia Pinto, onde, da sacada, abria o dito cujo e dizia a milhar da 1ª à 10ª, e, num remate cadenciado e em voz bem alta, falava qual o bicho dera em cada milhar.

         Os que haviam jogado pegavam os apuros e conferiam. Aquele que acertara levantava o braço e se regozijava. Os perdedores logo rasgavam o pequeno papelzinho que se chama mesmo “apuro”. E no meio da multidão, não é que padre Benedito Basílio Alves segurava um dos apuros que fora premiado. Gritava feito menino:

         - Acertei. Jacaré!

         O primeiro bicho fora Jacaré, nas 60, logo, o Vigário ganhara uns trocados.

         O povo comentava:

         - O padre vai acertar todo dia, Deus protege os padres.

         - É ele tem reza forte!

         - Tem isso não. É pura sorte.

         Outra que se imiscuía por ali, pensando ter acertado alguma coisa, era Cotó. Mas num muxoxo reclamou da sua falta de habilidade para jogar. Arriscou praticamente em todos os 25 bichos, justamente o Jacaré, que não se deu ao luxo de jogar, foi o que deu. Perdeu feio. E Doutor Nego também, irmão de Cotó, segurava alguns apuros, nada. Não acertara também. Ele disse para a irmã:

         - Nada não. Amanhã a gente torna a jogar, aí pode ser a nossa vez.

         O banqueiro descia e, na porta principal, conferia os apuros dos acertadores e ia pagando um a um. Chegada a vez do padre Benedito, este o olhou de soslaio e riu, dizendo:

         - A vida é assim mesmo. Um dia é da caça, outro do caçador.

         Ambos deram uma grande gargalhada que chamou a atenção. Zé do Bicho metido no seu paletó amarfanhado era só felicidade. O Vigário pegou o seu e o meteu no bolso e foi-se para casa.

         Danta e Guerra observavam de longe aquela movimentação que se repetiria por muitos dias, meses e anos. O que lhes intrigava, era aquele homem, Zé do Bicho, não tirar aquele paletó velho suado e fedido nem para tomar banho, imaginavam.

         - Vai vê ele nem toma banho.

         Disse Danta rindo e se contorcendo de tanta algazarra. Guerra também ria. Os dois meninos então saíram, queriam algum divertimento. Jogar bola em frente a Legião. Avistaram Wilson que trazia um pedaço de rapadura delicioso. Perguntou qual fora o bicho.

         - Jacaré!

         Respondeu Danta. Wilson exclamou:

         - Vixe!

         Guerra ficou meio encabulado e indagou:

         - Wilson para que você quer saber do bicho se nem joga?

         O comedor de rapadura, depois de triturar mais um pedaço, comentou:

         - É que meu pai disse que jogou no Macaco e no Pavão.

         Os garotos nem sabiam que Pavão corresponde ao número 19, enquanto Macaco o 17. E o bicho que deu hoje foi Jacaré, 17. Quase que o pai de Wilson também embolsa uns trocados.

         Sem mais comentários, se encaminharam à frente da Legião, onde outro meninos estavam tirando a “barra” para iniciarem a pelada. Ao serem avistados, houve uma breve disputa dos dois chefes dos times:

         - Guerra é do meu time!

         - Não, eu o avistei primeiro!

         - Nem pensar! Fique com Danta ou Wilson.
       
         - Tira eles para o seu time, o meu é o Guerra!

         A solução quem deu foi o próprio Guerra:

         - Nada disso. Não vou jogar. Wilson vai para um lado, Danta para o outro. Eu fico de fora espiando.

         A discussão terminou e assim começa a pelada. Sol ainda muito quente, a areia pegando fogo. Mas o meninos não estavam nem aí para o sol e areia quente. O negócio era jogar até o pôr-do-sol e descerem para um banho na lagoa.

         O jogo dos garotos ia bem. Nenhuma briga. E de repente formaram-se umas nuvens negras lá para as bandas do Vale. As pessoas começavam a prevenir as goteiras, botar as rodilhas nos potes, aparar água, aquilo seria chuva na certa daqui a pouco.

         O Ar ficou abafado. Uma quentura de rachar. Reclamação dizendo-se que o mundo vai pegar fogo. Via-se muita gente retelhando suas casas. Mulheres apanhavam roupa nos varais. Os animais se agitavam. Teve início uma onda de relâmpagos e trovões.
         A meninada se preparava para o banho de chuva. Adivinharam com precisão. Porque o nevoeiro pesado subiu, aproximou-se da cidade. Já chovia no Vale. E o primeiro pingo de água. Logo mil, milhões. Chuva torrencial. A meninada deixou que os canos despejassem a sujidade juntada no verão, quando perceberam que a água descia limpinha começaram a disputar os que lançavam maior jato de água.

         A água fazia correnteza sobre a areia. Um cheiro gostoso de terra molhada. Tarde de muita chuva, a primeira do inverno que, certamente, chegou naquele dia.

         Guerra, Danta e Wilson correram a fazer o que eles chamavam “açudes” na correnteza. Botavam pedaços de tijolos, cacos de telha, pedras e muita areia e represavam a água que descia. Brincavam descontraídos. Um mundo alegre, a Natureza era mesmo mãe de todos e de tudo. O tempo mudou de repente.

         Nas casas, os homens aparavam a água da chuva e enchiam os potes. Fartura. Muita água. Alegria. Mas os desprevenidos que não taparam as goteiras, ficavam apreensivos com água que caía dentro de casa. Prometiam amanhã consertar tudo.

         Choveu até a boca da noite. Quando Manoel Dantas foi para bater as seis badaladas, hora do ângelus, já carregava o guarda-chuva aberto, protegendo-se das últimas gotas que insistiam em cair.

         Depois de uma chuva, em Verdejante, tardezinha, as pessoas, quase que por unanimidade, saem às calçadas alegres, saltitantes, conversando com animação, de cabelos molhados. Parece que todo mundo tomou banho de chuva. O que não veio para debaixo das bicas nas calçadas, foram para os quintais, os terraços aproveitarem a abençoada água que dizem vem do céu.

         Danta, Wilson e Guerra, mais alguns garotos, ainda brincam, enlameados, na enxurrada que agora vem mais fraca, lá das ruas de cima. Costumam dizer que nas enxurradas a água começa a descer lá de Ademar Leão, e atravessa até o velho Cemitério, passa pela praça principal e única, contorna a Legião e a Cadeia Pública e sem encontra com as águas mansas da lagoa.

         Verdejante está erguida num tabuleiro, ou num lençol de areia. A água de repente é sugada pelo fofo da terra, some, imediatamente, como por encanto..
         Por isso os açudezinhos feitos pela garotada dura pouco tempo. Secam rápido. Mas eles insistem em continuar na brincadeira. Mas Guerra tem uma idéia.

         - Agora vamos ao banho na lagoa?

         E todos vibram, gritando ao mesmo tempo:

         - Vamos!

         E saem em disparada. Passam por cima de tudo. Quase que se arrebentam nas barreiras que anteparam a lagoa. Mergulham de uma vez. A claridade do sol já não há mais. O sino deu o sinal da chegada da noite.

         E assim, passam alguns dias, mais de um mês, até que entra o mês de mais. Por cá se costuma dizer que é o mês das noivas. Mês que acontecem os casamentos.

         No sertão tudo está verde. Tudo novo. Nova vida.

         Pasto para os animais. Água com fartura. E uma boa safra de milho, feijão e algodão. Melancia fazia lama. Era só felicidade os sertanejos naquele ano de muito inverno.

         Na residência de Vicente Maia havia um breve convescote. Antonio de Luzia de Purana fora até ali, acompanhado de sua mãe, convidar o comerciante para ser seu padrinho de casamento. Vicente Maia aceitou de bom grado, perguntou apenas para quando estava marcado e fez uma exigência:

         - Aceito. Dia 15 de maio. Mas eu sou quem vai pagar todas as despesas no Cartório ena Igreja. Do contrário, procurem outro padrinho!

         Antonio e sua mãe, como que por transmissão de pensamento, levaram ambos as mãos à cabeça, e Purana adiantou-se e, sabedora daquela exigência feita por aquele homem de palavra, apenas disse:

         - Obrigado, compadre Vicente. Sendo assim, o senhor faz como para...

         - Nada. Eu passo no Cartório e na casa paroquial e deixo tudo pago. O resto é com vocês!

         Cortou o homem que não aceitava um não a um seu pedido e a uma sua decisão. Tudo combinado. Os agradecimentos de praxe, despedidas. Naquela mesma tarde caiu um toró dos mais fortes.

         Acendidos os lampiões de gás dispostos na rua principal, na residência do Coronel Chico Pinto costumava-se realizar uma reunião na calçada. Para ali iam Antonio Lopes, o farmacêutico; Adrião Bezerra; Manoel de Brito; Chico Canuto, o homem mais rico da cidade; Elísio Pinto, pai dos mudos e mais alguns, como Manu, o pedreiro; Rádio, o sujeito que vivia de antena ligada e sabia de tudo o que se passava em qualquer parte.

         Aquela reunião só não acontecia na noite que houvesse chuva. Isso não acontecendo, lá estavam os amigos batendo papo, tudo sobre a comunidade, a política e a vida alheia. Nessa época o assunto era o inverno, qual o sítio que teve mais chuva, o que os agricultores estavam comentando. Até que por volta das 21h30, mais ou menos, a dita cuja reunião de amigos se dissolvia e cada um tomava o rumo de casa na noite escura, alumia apenas pelas tochas dos lampiões e, em noites de lua, aí sim, era gostoso caminha ao luar.

         E naquela noite, acabada a reunião, alguém presta auxílio ao Coronel Chico Pinto arrumar as cadeiras na sala, este agradece e tranca a porta da frente. Vai até à cozinha e abre uma porta que dá para o quintal. Tinha o hábito de lavar o rosto e os pés com uma bacia de água, antes de ir deitar. Ao fazer aquele gesto de todas as noites, recebe um tiro certeiro de rifle. De longe se ouviu o estampido.

         Sua mulher grita desesperada, Chico Pinto está morto. Levam os filhos pequenos para a casa paroquial. Aparece o padre, todos os amigos que acabaram de sair. Chega o prefeito, seu irmão Lucas Pinto. O delegado. A polícia. Há um alvoroço completo em toda a Verdejante. A ordem para vasculhar tudo, todos os recantos, a procura do assassino. Nenhum vestígio.
Nada. Um mistério se abate sobre a pacata cidade.

         Chico Pinto é homem de prestígio regional. Político de alto conceito no governo do Estado. Uma comoção além das fronteiras do município. Emissários são enviados às cidades vizinhas. Logo Verdejante está toda a cordada. Até os meninos.

         Guerra e Danta viram o corpo do assassinado homem. Ficou por ali, cada grudado no seu respectivo pai. Carlos Guerra, o tesoureiro e Manoel Dantas, o sacristão.

         E as mais variadas opiniões pipocavam em cada canto da cidade. Foram seus inimigos políticos. Chico Pinto escapou da emboscada de Massilon, mas agora não. Mas onde se meteu o assassino? Quem deu cobertura?

         Essas e outras indagações. Ninguém sabia de nada. Ninguém viu. Nenhuma testemunha. A noite foi de pesadelo em Verdejante. A partir daquela data a cidade nunca mais seria a mesma. A política tomou um rumo de perseguições e muita violência.

         Um dia após o enterro mais concorrido da história dos enterros de Verdejante, até àquele três de maio, Chico Pinto foi assassinado no dia anterior, pois um dia após ao seu sepultamento, outra bomba explode na cidade.

         Era a manhã do dia 4 de maio. Um curioso, que passava em frente à delegacia de polícia, perguntou o porquê do ajuntamento de tanta gente àquela hora:

         - Que está acontecendo?

         Outro curioso transeunte igual ao seu interlocutor, respondeu:

         - Descobriu-se quem matou o Coronel Chico Pinto.

         Ficou admirado, arregalou bem os olhos e ainda indagou:

         - E quem foi?

         O homem não escutou conversa, correu até à Delegacia que se encontrava repleta de gente. Lá chegando foi perguntando a um e a outro:

         - Quem descobriu o assassino?


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RESUMO - A pista para descobrir o assassino de Chico Pinto. Começo de política acirrada. João Batistas, o professor, candidato da oposição tem que se esconder. Episódios. O casamento de Antonio de Luzia de Purana e Dorotéia. Chega o São João. Agora asim, a verdade sobre a ida de padre Benedito para a capital. Próximos capítulos.
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* William Lopes Guerra é advogado, pesquisador e escritor em Apodi, herdeiro dos direitos autorias do pai.

        
        


        

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Romance de quinta


Aventuras do Menino Danta e seu amigo Guerra

  Por William Guerra*



CAPÍTULO XXXI

         Na casa paroquial os faróis, os candeeiros e as velas nos castiçais eram aceso muito cedo. Mercês realizava essa tarefa fazendo a capela de uma música de infinita doçura, que causava tristeza mesmo. Era a Ave Maria. E o mais interessante era que a empregada do padre sabia cantar muito bem. Daí impressionar mais ainda aquela canção àquela hora da tarde.

         O padre ficava meditativo. Enquanto ela não parasse de emitir um som suave da voz melodiosa, ele nada dizia. A comovente música que parecia nascer de um mundo além, o seu pensamento parece que voava para longe, recordações antigas. Como que entrando em transe, aquele homem, que ainda usava batina, mas que mantinha uma relação amorosa com a sua empregada, dava a impressão, que nesse instante ele chorava não um choro convulso para derramar lágrimas, mas chorava por dentro. Era a alma sangrando, o coração em dúvida.

         Mas a mulher sumiu com seu cantar triste. Padre Benedito voltou sua atenção para os dois meninos, comportadamente sentados à sua frente.

         - Guerra, meu afilhado do coração. Não vou embora de Verdejante. Pelo menos agora, não!

         Este sim chorou de verdade, porque se via enxugando o rosto com as costas das mãos. Danta o olhou admirado. O Vigário riu bem fraquinho, como quem está com pena de uma pessoa triste.

         - Ora, homem! Não precisa chorar. Nenhum drama está havendo...

         Guerra fez um gesto com a cabeça, como quem diz sim, ele compreenderia um motivo capaz de sensibilizar os seres humanos. Mas naquele caso, com certeza, ele chorava de alegria.

         - Eu não estou chorando. Estou feliz. É que caiu um argueiro no meu olho.

         Desculpa inteligente.

         Padre Bendito perguntou pelas lições. Se estava lendo o romance de Alexandre Duma: Carlos Magno e Os Doze Pares de França. Guerra assegurou que já ia à página 72. Mas só lia mais à noite, com ajuda de uma vela.
         - Muito bom... Danta está estudando o suficiente?

         Este respondeu que sim, embora um pouco ressabiado, ou com medo de dizer a verdade e o padre lhe passar um pito.

         - Então tudo está maravilhoso! Deus nos ajude para que, um dia, a gente se reúna aqui e comemore a vitória dos dois!

         Seria inútil predizer qualquer coisa. Guerra seguiria um caminho e Danta outro? Ou até mesmo na ocupação de um e de outro estaria unidos: carne e unha? Não sabemos, nem essa história é capaz de captar.

         Padre Benedito fez uma profecia sobre ambos:

         - Vocês hão de trabalhar em alguma coisa que os unirá mais ainda. O que ainda não sei. Mas algo me diz que farão um trabalho os dois, diariamente. O que será?

         Os meninos entreolharam-se e nada disseram. Apenas arregalaram os olhos e encolheram os ombros. Lembre-se que ambos gostaram muito da amplificadora do circo Maior de Todos: Guerra elogiava o locutor e Danta o que controlava a execução das músicas.

            Estavam assim, absortos e contagiados pela esperança que lhes dava o Vigário, quando ouviram a voz de Mercês:

         - Padre, tem um senhor aqui quer conversar com o senhor!

         Quem seria àquela hora, boca da noite, escurecendo, já? Pensou padre Benedito, gritou, indagando:

         - Quem é, é gente conhecida? Diga que já vou?

         Mercês, subindo mais alguns degraus da escada, falou:

         - Não! É um homem de palito e gravata. É a primeira vez que vejo tal sujeito.

         Deve ser mais complicação para cima desse pobre Cura de Paróquia do interior! Deus do céu! Disse de si para consigo, e desceu as escadas, acompanhado dos meninos.

         E lá estava um homem forte, paletó de linho cinza, todo amarrotado e com uma gravata escandalosamente vermelha. Cabelos em desalinho. Apresentava ter uns quarenta e poucos anos. Sorridente e, sempre assim, com a boca num sorriso, mostrava uma espécie de coroa de platina no dente mais apresentado, bem no meio da dentadura. Trazia na mão uma pasta de couro, daquelas que se entulham papéis e outros trecos convenientes à quem está sempre viajando.
         Apertando a mão do padre, foi dizendo:

         - Boa noite Vigário. Que bom, acompanhado de dois pimpolhos... São coroinhas? Eu sou José Lourenço, chamam-me Zé do Bicho.

         Os meninos não apreciaram aquela insinuação. Padre Benedito, coçando o queixo, igualmente ficou meio encabulado, mas logo devolveu o cumprimento do forasteiro:

         - Boa noite, meu senhor. Os meninos são filhos de grandes amigos meus. Este aqui é meu afilhado e este outro é filho do sacristão. Mas diga-me, ó senhor do Bicho, que quer aqui na minha casa a essa hora da noite?

         O homem notou que o padre, nem os garotos, gostaram da piada entre aspas que ele fizera, muito sutilmente. Tentou consertar:

         - Logo se vê que o senhor é amado pelas crianças... E, voltando ao Bicho, ou melhor ao meu apelido: Zé do Bicho, é porque sou banqueiro do jogo do bicho. Sou paraibano e venho aqui vê se instalo uma banca para os apreciadores dessa modalidade de adivinhação e ganhar dinheiro!

         Com isso o seu sorriso quase se transforma em gargalhada. Aindaestavam todos em pé. O padre, magoado com a investida inescrupulosa do desconhecido, sequer mandara sentar. Os últimos vestígios de claridade do sol foram morrendo lentamente. Ouviu-se os seis badalar do sino. O homem, não se sabe se somente por estar na presença do padre, para impressionar, ou se era mesmo muito religioso, ajoelhou-se fez o sinal da cruz e, mãos postas, cabeça baixa, somente quando o som do sino acabasse ele se levantar.

         Causou impacto nos garotos aquele ato, porém, o padre ficou meio cismado.

         - Muito bem. Senhor Zé do Bicho. Mas que tem a ver eu com a sua banca de bancar o jogo do bicho?

         O homem disse de chofre:

         - Nada, senhor Vigário. Absolutamente, nada! É que quando eu chego em qualquer cidade, a primeira pessoa que faço visita é o Cura da Paróquia, assim penso que a sorte me será favorável.

         Padre Benedito, intrigado mais ainda, respondeu:

         - Pois que seja. A sorte dos meus paroquianos é que se fará necessária, o senhor vem lhes tirar as migalhas que sobram para o sustento dos mesmos.

         O Zé do Bicho, tirando do bolso um lenço, não se deu por vencido naquela contenda quase amigável:

         - É. Nós somos iguais, senhor Vigário. O senhor lhes deu um Alambique para que tomem cachaça e haja muita desavença na cidade, pois a cachaça é uma pesada droga; eu apenas lhes dou momentos de diversão!
         Ao o padre ficou furioso. Guerra e Danta também. Aquilo era um insulto. Padre Benedito rebateu dizendo:

         - Ora meu estranho senhor! O meu Alambique dá emprego  e renda ao município. Enquanto o seu jogo do bicho traz jogatina, algo que até é proibido! Por obséquio, queira se retirar da minha casa. E se depender de mim, o senhor não fará nenhum minuto de ilusionismo aos meus fiéis! Vou conversar com o delegado e o prefeito sobre isso!

         O homem, suando e aperriado, vendo que não foi feliz em comprar uma briga com o Vigário, falou quase arrependido:

         - Desculpe padre, não disse por mal. Até antes de vir para cá, havia me comunicado com o delegado e o prefeito sobre a minha pretensão. O povo daqui, mesmo sem Banqueiro do jogo do bicho, faz sua fezinha com um cambista que vem de bicicleta de outro centro aqui vizinho, e tem um dia de atraso nos resultado. Agora terão um Banco do jogo do bicho na sua cidade.

         O Vigário foi andando, enquanto homem saía devagar da sala principal da casa paroquial, e lhe falava em voz alta:

         - Pois que vá cantar de galo noutra freguesia! O senhor não deveria ter bons modos para comigo! Agora perdeu a minha concordância! E passar bem.

         O homem ainda falou agora já na calçada:

         - Estou hospedado na pensão de Antonia Dantas. Qualquer coisa, precisando de ajuda, pode mandar me chamar que estarei ao seu inteiro dispor.

         Foi-se noite adentro, andando ligeiro com a sua bolsa, sem atinar qual a direção tomada, ficando somente a imagem daquele riso debochado que apresentava uma reluzente coroa de prata num dos dentes mais apresentado da sua dentadura.

         Mercês que ouvira toda a conversa chega e aconselha:

         - Melhor o senhor não se meter com esse aí. O povo gosta de jogar no bicho. Aposto que todos ficarão do lado desse tal de Zé do Bicho. Fica quieto, isso passa e o senhor não terá mais aborrecimentos.

         Danta e Guerra ainda não sabiam o que dizer. Nem tinha como, não entendiam nada de jogar no bicho, ainda, muito menos tinham conhecimento de que, de fato, Zé do Bicho conversara com o prefeito e o delegado. Não opinaram.

         Padre Benedito pediu uma xícara de café à empregada, pegou um charuto legítimo cubano e pôs-se a prepará-lo para traga-lo ainda com muita raiva do intrometido forasteiro. Ora onde já se viu, querer certificá-lo por causa do Alambique Malhada Vermelha?

         Virando-se para os dois meninos, pediu-lhes desculpas por não estar mais em condições de retomaram a conversa que haviam entabulado lá no sótão.
         - Hum, tem nada não. A gente entende. Mas não gostei daquele homem de paletó e grava e que não parava de achar graça!
        
         Falou Danta em nome do amigo. Despediram-se do Vigário. Guerra pediu a bênção. Foram-se, alguns amigos brincavam de esconde-esconde lá na praça, em frente à Legião de Assistência.
        
         O café lhe foi servido. O padre sentou-se numa cadeira na calçada da casa paroquial. Manoel Dantas veio para um dedo de prosa. Mastigava e rodopiava o molho de chaves. Características que, avistando-o sem que esteja sem praticá-las, pode tomar providências, algo está errado com o antigo sacristão.

         - Boa noite padre.

         Disse, entrando imediatamente para pegar uma cadeira. Sentando-se de um lado, vendo o padre soltar tufos de fumaça de maneira brusca, percebeu que algo estava fora dos trilhos.

         - Boa noite, Manoel!

         Foi a resposta do Vigário, notadamente deselegante.

         - Que está acontecendo, meu amigo?

         Indagou, parando de rodar as chaves no dedo indicador. O padre, ficando mais calmo, voltando aos poucos à sua normalidade, contou-lhe o episódio.

         Manoel Dantas disse que já sabia da chegada desse sujeito. Que os adeptos do jogo do bicho não falavam de outra coisa. Era a coqueluche do momento: o banqueiro do jogo do bicho em Verdejante. O padre ficou curioso:

         - Mas ninguém me disse nada? Por quê? Eu deveria ter sido informado. Nem o mudo de Maria Beltrão veio me fofocar sobre esse tal de Zé do Bicho? Que coisa!

         O sacristão, vendo que o padre começava a falar como faz costumeiramente, deu uma risada, não mostrava dentes por que não os tinha, mas seu riso de ancião contagiou o Vigário, que também riu.

         - Padre, talvez o mundo de Maria Beltrão esteja no rol dos que são a favor do banqueiro. Evitando ser repreendido pelo senhor, resolveu omitir uma informação que lhe iria desagradar. O mudo é sabido.

         Tudo, mas tudo mesmo, que acontece de novidade na cidade, o mudo de Maria Beltrão vem à casa paroquial participar. Às vezes o padre está na igreja, ou em qualquer parte da cidade, ele se informa e sai a cata do Vigário para contar, como que se vangloriando que fora o primeiro a informar ao Cura do tal acontecimento, seja bom ou ruim. Mas sobre Zé do Bicho, não ousou enfrentar o padre Benedito Basílio Alves.

         - É. Não vou tomar providências. Deixa o povo se divertir. Por outro lado o banqueiro paraibano não vai se dar muito bem, não. Nossa população não tem mais do que alguns trocados para fazer o seu palpite.

         Manoel Dantas concordou com o Vigário.

         - Então? Deixa isso para lá. Caso haja necessidade de alguma intervenção, que seja das autoridades: Promotor, Juiz, delegado e Prefeito. Aliás, se depender o Juiz, nada será feito, ele mora fora. O Promotor de justiça vive embriagado. O delegado, tenho certeza e aqui para nós, receará algum para licenciar a jogatina. E o prefeito, fica coma a maioria que o povo. Maneira que isso, pelo menos para mim, nem me sobe, nem desce. Eu não jogando, morreu Maria Preá.

         Padre Benedito gargalhava alto, chamando a atenção da vizinhança que já se sentavam em suas calçadas para tomar a fresca da noite.

         - Manoel Dantas, meu bom sacristão, só você mesmo para me fazer rir até ficar com dor.

         E continuava cada vez mais numa gargalhada relaxante. Manoel Dantas também ria. Recomeçando a rodopiar o molho de chaves. Chico Pinto, vizinho e amigo do padre, notando aquela algazarra entre os dois, chegou-se para perguntar por que tanto contentamento?

         Rapidamente o padre lhe relatou tudo. Ofereceu-lhe a cadeira, este disse que não precisava. Foi contagiado pelas gargalhadas dos outros dois, voltou à sua casa rindo à valer. Manoel e o padre ainda conversaram por alguns momentos. Repassaram os últimos acontecimentos como o não julgamento de Jesus; a árvore que o Guerra impediu de ser derrubada e, finalmente, a paz e a tranqüilidade que reina entre as tr~es beatas: Tilde, Cotó e Adofina, faz tempo que elas não traziam alguma queixa para o Vigário.

         - E Elísio Pinto, ainda fofoca muito, Manoel?

         Perguntou displicentemente padre Bendito. O sacristão responde:

         - Sabe senhor padre, não tem visto Elísio. Está ocupado com alguma coisa lá para as bandas do curral de João de Deus. O filho que fala e é normal, foi embora para o Pará. Ficaram os três mudos e a muda.

         O padre Benedito comentou com sentimento profundo a situação de Elísio Pinto, homem bom, mas conhecido na cidade como o mais fofoqueiro, dava a vida por uma fofoca, mas o destino fora cruel com ele. Cinco filhos: uma muda, mais três mudos, e o único que não tinha problemas de invalidez, fora embora.

         - Tenho dó de seu Elisio Pinto. Ainda por cima uma mulher danada que vive a ralhar, reclamar de qualquer coisa. Dá cá aquela palha ela já está com seus impróprios e reclamações...

         Manoel Dantas, rodopiando bem devagar as chaves e quase sem mastigar as gengivas, sinal de comoção, filosofou:

         - É a vida. Cada um carrega o seu fardo. Deus que escreve certo por linhas tortas, deve ter o seu motivo para que este bom moem prove que é resignado.

         Padre Benedito discordou:

         - Não, Manoel. Deus não faz isso com o seus filhos. Isso é mesmo da natureza, o sangue de Elísio com o de dona Liquinha, sua esposa, não se deram muito bem e produziram filhos defeituosos, não fisicamente, pois a mocinha, a muda, é muito bonita, mas de outra maneira: surdos-mudos.

         Ainda palestraram por alguns minutos. Há muito que o padre jogara o toco do charuto para longe. Sequer lembrava mais a ríspida conversa com Zé do Bicho, despedindo-se do amigo sacristão, entrou e fechou a porta. Manoel Dantas, lançando um olhar para dentro da casa, viu o rebolar das ancas de Mercês, que sumia no escuro das entradas e saídas dos cômodos da enorme e antiga residência do padre Benedito Basílio Alves.

         Reiniciando seu hábito de mastigar as gengivas para combater as cócegas que faziam, e rodando as chaves da igreja no dedo, desceu para sua casa. Na calçada, fumando cachimbo, o aguardava dona Joana. Olhando para a praça com seus lençol de areia, avistando Danta correndo com os outros garotos, deu um potente grito:

         - Danta! Vem se assear para dormir!

         Era sempre assim, ao chegar à casa. Também se transformara num hábito, chamar o filho, embora ainda faltasse muito para o horário de dormir.
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RESUMO - Vai ser uma festa o jogo do bicho. Vamos ver. A chegada do inverno. A morte de Chico Pinto e muitas coisas acontecendo na política. Coronel Benedito saldanha e o professor João Batista. Perseguição e fuga. Próximos capítulos. (Sim: o camaento de Antonio de Luzia de Purana e Dorotéia).

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* William Lopes Guerra é advogado, pesquisador e escritor em Apodi, herdeiro dos direitos autorias do pai.