segunda-feira, 18 de julho de 2011

PRECE DA GRANDE NOITE


De joelho, como você.
Diante do Berço que se fez altar de todas as igrejas e de todas as criaturas,
irmão, como você.
De todas as mulheres e de todos os homens,
lembro muitos, penso em todos.


Seja esta Grande Noite, para cada um,
a sombra que apaga todas as amarguras,
o silêncio que esmaga todos os ódios;
aos injustiçados, um sopro de Justiça,
aos desempregados, a oportunidade do trabalho estável,
aos tristes, alegrias novas,
aos desalentados, confiança no futuro,
aos jovens, o mundo reconstruído sem rancor,
às crianças, a benção da maior proteção e da melhor ternura,
aos que tem medo, a coragem de triunfar,
aos que triunfam, a permanente lembrança
dos que pedem, sofrem, choram, esperam.


De joelhos, como você,
peço humildemente,
na Fé que renasce na Grande Noite:
haja, no mundo, mais paz e mais amor,
e no coração de cada um,
mais esperanças que estrelas no céu.


Natal, 24-12-68

Aluizio Alves

Só Rindo...



Imagem: Ivan Cabral

Trabalhadores em Educação decidem dar continuidade da greve



Em assembleia realizada na tarde desta segunda-feira (18), os trabalhadores em educação reafirmaram a continuidade do movimento grevista.

Os trabalhadores em educação reconhecem que começou a haver alguns avanços, contudo se faz necessário avançar ainda mais.

Os encaminhamentos da assembleia foram os seguintes:

•    Continuidade da Greve dos trabalhadores em educação;
•    Próxima assembleia quarta-feira (20), às 16 horas, na E. E. Winston Churchil;
•    Participar do acampamento do “Levante do Elefante”, quarta-feira (20), a partir das 9 horas.





Fonte:  janeayresouto.com.br

SINTE-RN responde aos ataques de Rosalba

A Governadora afirmou que está estarrecida com os sindicalistas por não terem orientado a categoria a acatar a ordem do Tribunal de Justiça para o retorno imediato ao trabalho. Se ela está estarrecida o que dirão os trabalhadores em educação que assistem a um festival de desobediência às Leis por parte do governo?


A começar pela Lei do Piso salarial que vem sendo pisoteada pelo governo desde o dia 06 de abril. A Governadora deve a todos os professores 20 horas semanais de Trabalho. Ao final do mês, são 80 horas de trabalho em sala de aula. E agora quem descumpre a Lei?

Tem mais: a Lei 432/2010, da implementação de sua tabela salarial que será implantada só em dezembro? A lei diz outra coisa. Diz que seria até setembro. Cadê o pagamento da carga suplementar e dos contratados que não está em dia? Os trabalhadores em educação não arredam pé de lutar pelos seus direitos, nem de denunciar a situação caótica em que se encontra a escola pública estadual. Estamos falando do direto dos profissionais que se estende aos alunos e alunas.

Os argumentos de Rosalba não se sustentam em nenhum aspecto. No que se refere as condições gerais do ensino estado, basta fazer alguns questionamentos à luz da realidade para se verificar que a situação da educação estadual beira o colapso: a reforma do Floriano Cavanti atrasou suas aulas em dois meses. Por que tendo o governo mais de 40 dias para o início das em fevereiro e não providenciou professor para assumir as salas de aula? Por que cessou a convocação dos professores selecionados em 2010 para assumir as salas de aula? Por que vem retardando a realização do concurso público? Se fossemos elencar as condições de precariedade das escolas certamente teríamos que escrever um livro. Mas, podemos sintetizar dizendo: “Se o Atheneu,- o mais antigo Liceu do Brasil, está abandonado imagine a resto… e tem resto?

Será que a governadora já parou para pensar que não vai barrar a insatisfação dos Profissionais? Será que o governo está refletindo que neste momento pode-se negociar uma política que vai deixar fora do cenário de 2012 a possibilidade de greve? O que os trabalhadores em educação exigem é uma política para a educação e de um ensino de qualidade e não do faz de conta que a Governadora quer instituir neste momento.

Professora Fátima Cardoso – Coordenadora Geral do Sinte-RN



Fonte: Balcão da Biblioteca

Força e coragem para lutar pela escola pública!

Por Amanda Gurgel*




No dia 13 de julho, como se vivêssemos uma novela, cujo início, meio e fim tod@s já conhecessem, foi divulgada a decisão judicial que determinava aos professores (as) grevistas da educação estadual do RN o retorno imediato à sala de aula. Com base na decisão, a Secretaria de Educação se desarvorou a publicar um calendário de reposição das aulas nos jornais locais. Um esforço em vão, já que a decisão unânime da assembleia d@s trabalhadores (as) em educação, no dia 14, foi de manter a greve.

Após tal decisão, Rosalba Ciarlini (DEM), governadora do RN, que até então vinha se comportando com a arrogância típica de uma rainha que não desce do trono para se dirigir aos súditos, resolveu dar as caras pela primeira vez, após quase 80 dias de greve, para dizer que sofreríamos corte de ponto, processo administrativo, exoneração, substituição, etc e tal, demonstrando o seu desespero e agonia diante da desobediência e atrevimento d@s súdit@s.

É, Rosalba, sinto informá-la, mas a luta de classes tem dessas coisas... chega uma hora em que a parte mais fraca cansa de apanhar e acaba descobrindo que, na verdade, é a parte mais forte, porque é a maioria. Acaba descobrindo que passou uma vida inteira de privações e sofrimento, enquanto @s responsáveis pela sua pobreza gozavam uma vida regada a bebidas caras e toda sorte de esbanjamentos. Chega uma hora em que a gente entende que a obediência nem sempre é a melhor opção. Entende que a lei não existe para defender, mas sempre para punir os oprimidos.

Naquela assembleia do dia 14 de julho, apenas repetimos o que Rosalba se recusava a ouvir: nós estamos dispost@s a mudar o final dessa novela em que a vilã sempre leva a melhor. E se ela resolveu apelar para o supra-sumo dos três poderes, tivemos que dizer também para ele: não acreditamos mais que a justiça seja justa. Reveja suas posições.

O julgamento de ilegalidade da nossa greve foi dado com base em um argumento classificado como “social”. Segundo a justiça, @s alun@s que vão fazer vestibular não podem ficar prejudicad@s. Alegou, ainda, o risco “iminente e irreparável” de perda do ano letivo.

Em primeiro lugar, é necessário enfatizar a grande demagogia existente nessa alegação judicial. Convenhamos, em que momento o poder judiciário brasileiro esteve preocupado com problemas sociais? E se está tão preocupado assim por que não trata logo de obrigar os governos a cumprirem a LEI DO PISO NACIONAL, por exemplo, ou de expropriar os bens de Palocci, convertendo seus R$ 20 milhões em algo que gere trabalho e renda para os pobres do nosso país? E nem me venham com explicações sobre as instâncias e as varas, e dizer que uma coisa não tem a ver com a outra, que estamos falando da Federação e do Estado e blá blá blá. Eu não estou falando disso! Estou falando da essência desse poder que consegue incorporar, com “requintes de crueldade”, o caráter de classe da nossa sociedade.

Falar em prejuízo d@ vestibuland@ de baixa renda a essa altura do campeonato? Faça-me o favor! Quantas vezes 1% que seja d@s noss@s alun@s entraram em alguma universidade pública? Quantas vezes algum (a) juiz (a) ou algum (a) promotor (a) se ocupou em dizer a qualquer governador (a) que é ilegal se utilizar da necessidade material de profissionais e estudantes que se submetem a contratos e estágios firmados ao final do ano letivo, aprovando alun@s que passaram um ano inteiro sem aulas, garantindo as condições burocráticas para inscrição deles (as) no vestibular? A resposta é: NUNCA! E esse mesmo poder vem agora nos falar de prejuízo aos noss@s alun@s? Vem dizer que somos ilegais justamente por estarmos denunciando esses problemas e lutando pelo direito inalienável deles (as) a uma educação de base e uma universidade pública de qualidade? Essa é uma piada de muitíssimo mau gosto!

Não é possível que, sendo a maioria, aceitemos passivamente permanecer sob o jugo de três poderes que estão freqüente e articuladamente envolvidos em escandalosos casos de corrupção. Que conseguem através de sórdidas maracutaias, cuja engrenagem nós não somos capazes nem mesmo de imaginar, conferir prejuízos financeiros irreparáveis aos cofres públicos, sem nunca serem condenados, exatamente por serem eles (as) mesm@s @s responsáveis pelos próprios julgamentos.
A nossa decisão foi absolutamente acertada. E, por isso, estou – como nunca estive – muitíssimo orgulhosa da minha categoria. Não podemos esperar que alguém que nunca pisou no chão de uma escola possa compreender as nossas razões e o caráter urgente da necessidade de melhoria das nossas condições de vida e trabalho. Essa luta é nossa e de toda a população. Portanto, cabe somente a nós o poder de decidir quando ela começa e quando é suspensa.

Digo aos meus colegas que essa é a nossa hora e que não podemos perder o bonde da história, desperdiçando uma oportunidade ímpar de escrevermos um capítulo inédito dela! Força! Coragem! Não nos preocupemos com riscos “iminentes e irreparáveis” no campo da burocracia. Nos preocupemos sim, com o risco iminente e irreparável da perda do que sobrou da nossa dignidade, que foi sorrateiramente amputada governo após governo, e que hoje é definitivamente soterrada por Rosalba. Retomemos o diálogo com os pais, as mães e @s alun@s sobre a legitimidade da greve e desconstruamos o discurso do prejuízo nesse período opondo-o à realidade do prejuízo distribuído em 200 dias letivos de precariedade e exploração! Não vacilemos em dizer que a responsabilidade pelo caos na educação é tão somente de Rosalba, e não nossa, pois somos tão vítimas quanto @s alun@s.

Exigimos que a governadora faça como fez com todas as outras categorias que estavam em greve: atenda às nossas reivindicações para que possamos finalmente retornar ao trabalho. É somente em nome da educação pública que reafirmamos a nossa posição, pois não há motivo para desistência enquanto há disposição para uma luta justa!
* www.professoraamandagurgel.blogspot.com

Convite


Conselho Regional de Odontologia do RN       &    Sociedade Brasileira de Dentistas Escritores
CONVIDAM  PARA  O “PROGRAMA  QUARTA  CULTURAL” - ANO VII                          - Sempre  na      e   na    quarta-feira  do  mês -
SARAUTERAPIA:   POESIA, MÚSICA, CAUSOS, HUMANISMO.
    PRÓXIMO:     QUARTA-FEIRA -  20. 07. 2011
Das  18  às  21 horas.

TEMA  CENTRAL: FRATERNIDADE
.
APRESENTAÇÃO:  SPVA/RN - Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do RN
ONDE:  Ótimo Auditório -  Rua Cônego  Leão  Fernandes, nº 619.  Petrópolis.
(Paralela à Av. Afonso Pena -  Liga  a  Av. Rodrigues Alves à Rua Mossoró)

PARTICIPE  TAMBÉM  DO
 14º  ANIVERSÁRIO  DA  SPVA!
Lançamentos:
1) - VI Volume  da Antologia Literária, com sarau poético-musical.
DATA / HORA: 29-07-2011 – 6ª feira, às 19 horas;
2) – PROGRAMA CESTA CULTURAL - Última 6ª feira de cada mês, das 19 às 22h
LOCAL: Auditório do IFRN - Av. Rio Branco - Cidade Alta.
ENTRADA LIVRE PARA QUEM GOSTA DE POESIA, MÚSICA, HUMANISMO!

domingo, 17 de julho de 2011

Romance de Domingo

Aventuras do Menino Danta e seu amigo Guerra
  Por William Guerra*

CAPÍTULO XI

         A noite foi longa, depois daquela revelação. Seria o senhor Vento Solto, confiável? Nada se podia fazer a não ser esperar. As rodas se formavam nas esquinas, nas calçadas, vizinhos trocando ideias e discutindo como se defender dos bandidos.

         Na casa do Coronel Chico Pinto a noite toda um entra e sai de pessoas: parentes, amigos e agregados. Solidariedade. Apoio. Palavras de conforto. Enquanto isso Manoel Cosme, montado numa burra possante, já rumara à vizinha Caraúbas se encontrar com o Coronel para inteirar-lhe do sucedido.

         Chico Pinto era líder político, não só deste município de Verdejante, mas de toda a região Oeste do Estado. Não é por acaso que o seu nome está sendo cogitado para ser o próximo presidente da Província. Ele tem o apoio do seu partido e de outros que vêem no Coronel Chico Pinto o homem ideal para comandar os destinos do Estado. Homem de negócios. Empresário e fazendeiro. Dono de vastas terras e de grande rebanho de gado. Sua palavra junto ao governo estadual é acatada com louvor. Seu prestígio vai além fronteiras, até na Paraíba e Ceará falam no mais influente homem político nordestino, que poderá ser o próximo chefe da sua Província.

         Chico Pinto herdou o comando político local e regional do Coronel Ferreira Pinto. Portanto os Pinto são uma família de destaque na política estadual, atraindo invejosos o que, certamente, provocou a ciumeira nos adversários que querem eliminá-lo do cenário político. Por enquanto ninguém citou nomes. Há suspeitas, mas não se podem fazer prejulgamentos. Mas também é certo que haverá uma investigação para saber de onde vem a autorização para matá-lo. Sim porque existe um mandante. Os dois homens que contrataram Massilon não passam de paus mandados. Os ‘cabeças’ não aparecem nesses casos de mortes encomendadas. Se o atarracado cangaceiro estiver certo, algo muito grave está para acontecer em Verdejante. Alguém levantou a hipótese de ser mesmo fogo amigo, ou seja, os próprios aliados do Coronel querendo ver seu couro espichado, saindo de cena para que não seja um entrave a aspirações outras.

         Padre Benedito Basílio Alves, diferentemente dos demais habitantes da cidade, ao invés de sair por aí a cochichar sobre o sucedido, recolheu-se à sua residência, melhor para pensar sobre o fato. Foi aí que se lembrou que a cigana lhe dissera que ele, o Vigário desta paróquia, iria ser personagem principal num grande acontecimento, que talvez fosse uma invasão de cangaceiros...! A última frase pensou alto, falando mesmo.

         - Meu Deus! Que coincidência. Ou teriam os ciganos algo a ver com tudo aquilo?

         Dizia isso sozinho, como se estivesse falando com as paredes. Mas absorto, nem percebeu quando um vulto penetrou no quarto e ficou de pé por trás da cadeira onde estava sentado. O farol aceso com a sua diminuta chama dançava dentro da manga de vidro, iluminando com dificuldade aquele refúgio do celibatário padre.

         Rapidamente se voltou para trás, distinguindo a bela Mercês. Ela estava deslumbrante. Cabelos soltos, perfumada, rindo e apresentando dentes perfeitos. O servo de Deus também ficou de pé e dirigiu aos céus a seguinte súplica:

         - Senhor, se for pecado amar, terei todos os pecados do mundo, mas não me acuse por tão bem-vinda tentação...!

         Depois disso, como um toque de mágica, o farol se apagou. O escuro foi testemunha de suspiros e trocas de juras de amor, enquanto lá fora o povo ainda repercutia o segredo revelado por um deletério que se dizia chamar Vento Solto.

         Já nem o sol aparecia direito, lá estava Danta no pé da porta da casa do amigo. Queria dizer uma coisa ao Guerra. Tinha o “fato furado”, isto é, qualquer assunto, por mais insignificante que seja, corre para participar ao amigo inseparável.

         Carrinho abriu a enorme porta. Danta entrou, assim como um gato doméstico que passou a noite farreando e, amanhecendo, fica ali, na espreita, esperando que seu dono dê um espaço para voltar à rotina de felino do lar.

         Guerra limpava as gaiolas. Recolocava água limpa nos recipientes bebedouros das aves. Danta ajudou na tarefa. Levou as gaiolas e pendurou-as no pé de cajarana. Guerra subiu na árvore amiga, foi pesquisar no seu cofre particular se faltava alguma coisa. Conferiu tudo. Nada de anormal. E virando-se para o amigo, perguntou:

         - O que deu em você para madrugar aqui em casa hoje?

         Danta já estava, também, em seu cantinho preferido entre os galhos floridos. Botou uma folha na boca, mastigando e cuspindo longe a saliva esverdeada pela ação do pigmento químico existente nas folhas das árvores, revelou seu segredo:

         - Tenho um segredo. Não é daqueles que o homem de chapéu de couro contou, não. O meu é simples.

         - Que segredo?

         - Vou ser engraxate.

         Guerra riu. Essa é boa. Pensou e devolveu o segredo do amigo:

         - Já temos dois e é demais. Quase ninguém usa sapatos em Verdejante...

         - Sei, o engraxate Tatim e aquele menino filho de seu Valério?

         - Han, han...

         - É eu soube que o Tatim vai embora para Fortaleza, abre uma vaga.

         Guerra riu mais ainda. Que tonto.

         - Como vai engraxar se você não tem uma caixa para colocar as coisas? Não tem graxa, nem escova, nem flanela, nem tinta branca e tinta preta e tinta marrom... Álcool... Nada?

         Danta ficou pensando. Como daria um jeito para conseguir tudo aquilo? Se pedir ao seu pai este lhe manda estudar. Se for ao prefeito, este não acreditará na sua palavra, dirá que precisa falar com o seu pai que, por conseguinte, responderá que vai ter que estudar, não engraxar.

         - É. É difícil.

         Guerra deu o ultimato:

         - Difícil uma ova. Impossível! E tem mais: você tem que primeiro praticar, aprender bem como polir para deixar os sapatos brilhando novinhos em folha.

         - É. É difícil.

         - Melhor a gente ir passarinhar. Os ciganos vão embora hoje. Verdejante vai ficar novamente vazia.

         Danta ficou conformado, não iria mais insistir com esse negócio de querer ser engraxate, não.

         - Vamos ao que interessa: passarinhar. Mas que é bonito ver um engraxate engraxando isso é.

         Guerra não respondeu. Pegou o embornal, o colocou no ombro e desceu feito macaco pelo tronco da árvore. Danta também. Passaram pela cozinha, Socorro lhes deu pão e pedaços de rapadura. Foram até a casa de Danta que precisava pegar sua boladeira.

         Entraram pelo Beco de Bino; foram pela ensombrada rua do funileiro; desceram na rua de trás. Na porta da residência de Pedro Bodegueiro, lá estava Pedrão limpando os olhos ainda remelentos. Ao avistar os dois meninos embocou casa adentro. Guerra e Danta perceberam e riram. Passaram em frente e Pedrão não deu as caras.

         Saíram pelo corredor de Brel; deram uma passadinha na Matança, pararam: nenhuma novidade. Desceram pelas missões e chegaram a Dona Tiadora. Subiram no corredor que ia sair no Jatobá. Transpuseram a cerca no curral de Valdemiro e finalmente pararam na baixa da tamarineira.

         O sol ainda era fraco àquela hora da manhã. Os dois amigos ficaram por ali, atirando em rolinhas; assustando cobras pretas - bichos inócuos; abelhas escondidas no alto das árvores e maribondos; derrubando frutos de carnaúba; ameaçando calangos que rastejavam por entre o mato ralo.

         Sentaram à sombra da grande tamarineira. Danta puxou conversa:

         - Você ainda vai se vingar do Pedrão?

         Guerra não respondeu.

         - Quem você acha que roubou o bode daquele circo?

         O amigo nada respondeu. Continuou calado. Danta pensou: será que ele está preocupado com alguma coisa?

         Mais uma vez insistiu em abrir uma conversa:
         - Os cangaceiros invadindo Verdejante, a gente fica por aqui mesmo?

         Guerra mudou de posição, sentado e recostado no tronco da árvore. Olhou para cima, viu que os primeiros frutos começavam a amadurecer, algumas vagens caíam à ação de ventanias. Olhou para o amigo e disse, respondendo às indagações do amigo:

         - Primeiro não tenho intenção de me vingar do Pedrão, já passou. Segundo ninguém sabe, ainda, o nome do larápio que surrupiou o bode. E, finalmente, se é que aconteça mesmo essa invasão dos cangaceiros à Verdejante, os nossos pais saberão o que fazer.

         Fez uma pausa, e sem dar chance para Danta argumentar qualquer coisa, continuou:

         - Estou pensando aqui nos ciganos, no circo, no bode, nos cangaceiros, naquele homem que se chama Vento Solto, em Massilon, e, especialmente, no meu padrinho, Padre Benedito...

         - Como assim, pensando?

         Danta, imitando o amigo, igualmente mudou de posição, retirando umas folhas secas de um recanto e acomodou-se melhor, bem mais perto de Guerra, enquanto fazia a pergunta.

         Geurra falou, pausadamente, com uma tristeza na voz que Danta quase não reconhece o amigo esperto e vibrante de todas as horas:

         - O circo Maior de Todos foi embora sem Merlim, uma saudade danada bate no peito pelos dias de alegria que ele nos deu aqui, enquanto o dono do bode deve morrer de saudade do seu amigo, o bode que adivinhava; os ciganos, também, que já quase fazia parte do cenário urbano da nossa pequena cidade, arribaram repentinamente, deixam um vazio na população; o homem esquisito que veio ninguém sabe de onde, plantou o terror entre os políticos daqui; os cangaceiros são pessoas perversas, excluídos do nosso convívio social que nos causam medo; Massilon, homem terrível que só teme a Deus. E Padre Benedito, acusado de ser amante de Mercês, e esta amante dele, não tem escapatória.

         Danta ficou admirado:

         - Mas como você está falando bonito, parece um adulto? Mas que quer dizer com “padre Benedito não tem escapatória?”
         Guerra ficou mais pensativo, quase fechando os olhos, continuou:

         - Um homem solitário. Um ser humano. Que veio de longe para ajudar ao povo daqui. Não tem mais notícias dos seus familiares. Não tem filhos. Ninguém! Você não acha que ele deve se apegar a outra pessoa e conversar, confidenciar suas amarguras e, como é homem, amar também, igual a qualquer homem, já que esse outro alguém é a sua empregada?

         - Bom, eu não entendo bem dessas coisas do coração, da alma, do corpo, nada... Mas eu tenho a impressão de que Mercês é a mulher dele, sim! Fala sobre esse negócio de escapatória?

         Guerra prosseguiu:

         - A cigana disse, eu ouvi que padre Benedito iria ser uma pessoa importante num acontecimento em Verdejante. Que o tal acontecimento seria uma invasão de cangaceiros. Compreende? Está para acontecer. Agora, o que o padre vai fazer? Isso é que eu queria descobrir antes. Entendeu agora?

         Danta balançou a cabeça afirmativamente.

         - Entendi. Quem sabe esse negócio de matar o Coronel Chico Pinto, não sobre para o Vigário? Ao invés deles matarem o político, matem o Pároco?

         Ouviram uma Ben-ti-vi cantar, houvera pousado no galho mais alto do pé de tamarindo. Guerra, antes que a ave abrisse o bico outra vez, atirou com a sua baladeira. Não acertou, mas espantou a ben-ti-vi que voou para longe. Aquele pequeno entrevero veio tirar a tranqüilidade dos dois meninos, que, ficando ambos em prontidão de atirar novamente, saíram pelo meio do mato à cata de algum bicho para perseguir por pura diversão.

         Depois de muitas voltas em torno sem conseguirem atingir objetivos de indomáveis perseguidores de passarinhos, voltaram ao ponto de partida. Sentados outra vez ao pé de tamarindo, com o sol já botando suas mangas de fora, esquentando de vez, Guerra puxou outro assunto. Aliás, esse seria o assunto que pretendia se ater com o amigo Danta.

         - Meu irmão chega na próxima semana. Já se formou em professor.

         Disse isso com tanta melancolia que Danta quase chora, não fosse a imediata reprovação pelo tom de voz tão triste:
         - Espera aí Guerra. Tenha dó. Parece que nem está para chegar um irmão seu, mas um inimigo... Isso, não! João Guerra volta diplomado em professor é uma honra para você. Aliás, o primeiro professor verdejantense que se formou de verdade. Aqui nós temos Joaninha de Benvinda e o professor Batista que são quebra-galhos, não são formados.

         Guerra ficou pensativo complementou, ainda com tristeza:

         - Mas meu pai falou que quando ele chegasse, mandaria ele me ensinar as matérias relacionadas ao aprendizado, eu não quero aprender nada, quero continuar burro.

         Danta deu uma gargalhada sonora, afugentando insetos, bichos e que tais pelo meio dos descampados e o que houvesse de vivo naquela mata.

         - Então é isso, você está com medo de enfrentar o seu professor?

         - É.

         - Pois eu daria um milhão para aprender com um irmão que nem o seu. O danado é que não tenho um irmão formado. Meu irmão é mais rude do que eu, apesar de também ser mais velho.

         A partir desse momento, ficaram calados, dois meninos tristes agora. O primeiro porque o irmão teria que fazê-lo aprender a ler, enquanto o segundo não tinha um irmão para a mesma coisa.

         O sol subia, sem esperar por nada.

         Não desabrochava um sorriso sequer na natureza. Ia o mês de dezembro começando, e nada; nenhuma lágrima derramada do céu; o sol refulge sempre; enquanto um juazeiro ao longe e dali avistado, verde perdido nas caatingas esqueléticas indicava um tom de heroísmo e raridade. O sertão estava seco. Por todo lado a nudez, sertão inóspito, quase negro, enquanto a mata onde se encontravam ainda resistia à inclemência da falta da água. Os dois garotos, acostumados àquelas cercanias, viam estender-se em ondulações desnudas, aquela terra apontada de mirrados capões.

         Por aqui imperam moitas viçosas de muricy, guajiru, guabiraba e murta oferecendo seus frutos ao descaso de quem passa sem rumo; as juremas rachiticas ensombram - aí concentra-se o mistério da natureza - torceras de coroas-de-frade. Ah! Aqui é o sertão que, a despeito da Primavera e do Outono, possui somente duas estações: Inverno e Verão. Época de chuvas e a seca. Seis meses para cada lado.

         As serras avultam. Subindo em qualquer monte, o olhar se alonga na planura, disperso na incoerência de remotas transformações geológicas, cuja flora parece uniforme, sem pormenorizações. No sopé das serras a vegetação é driádica, há mais seiva, talvez mais rica, enquanto os carnaubais margeiam os rios.

          Pois bem, os dois meninos, apesar de semi-adolescentes, já entendiam isso: na seca vive-se dos recursos deixados pelo inverno, enquanto durantes os meses chuvosos colhe-se a fartura brotada nesta mesma terra de tantas contradições.

         Guerra e Danta deixaram de lado a tristeza. Que viesse João Guerra, o Professor! Que chegasse logo o fim do ano, para ter início o bendito período das chuvas, das enxurradas, da melancia, do feijão novo, do milho, do algodão e da colheita.

         Danta e Guerra eram tão ligados que agiam sobre a mesma coisa automaticamente, sem necessidade de comunicação verbal. Levantaram-se ao mesmo tempo e saíram caminhando devagar, de volta para o centro de Verdejante. Puxaram conversa, disse Danta:

         - Depois de amanhã vai haver a invasão.

         - E se for amanhã, mesmo?

         Foi a observação do Guerra.


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RESUMO: A invasão de Massilon e seu bando vai acontecer amanhã! Antes da quinta-feira programada. Um Deus nos acuda. Padre Benedito, habilidoso e dotado de grande coragem, salva Chico Pinto dessa empreitada. A vida segue em Verdejante. Vamos saber quais as consequências daquela invasão. O que vai acontecer com o bandido Vento Solto? Guerra está apreensivo, João Batista Guerra, seu irmão chega diplomado em professor. Vamos acompanhar?
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* William Lopes Guerra é advogado, pesquisador e escritor em Apodi, herdeiro dos direitos

sábado, 16 de julho de 2011

Professora Amanda Gurgel vira matéria da Revista Cláudia

Amanda Gurgel - a professora brasileira que defendeu sua profissão

                                                                       Marcia Kedouk

 
A professora Amanda Gurgel, 29 anos, fez um desabafo na Assembleia Legislativa sobre as condições da educação no Rio Grande do Norte. O vídeo com seu discurso já foi visto por mais de 1,8 milhão de pessoas e ela se tornou uma celebridade na defesa do ensino.



 

Nunca pensei que um discurso improvisado me tornaria conhecida, ainda que, na infância, dissessem que parecia adulta falando. Acho que perder meus pais em um acidente de carro, aos 4 anos, me fez amadurecer mais cedo. Eu e minhas duas irmãs mais velhas fomos criadas por tios na cidade de Poções (BA), mas nasci em Natal, onde moro. Só que ser órfã não me tornou uma coitadinha – de forma alguma.

Na juventude, fiquei indecisa entre o curso de jornalismo e o de letras. Uma professora de espanhol me inspirou a decidir pela segunda carreira, pelo jeito como ela abraçava a missão de ensinar. Sou formada em letras com especialização em educação de jovens e adultos e leciono em uma escola do Estado e em outra do município. Na adolescência, cheia de sonhos e ideo logias, não fazia ideia do que era o dia a dia de um professor. Somente na faculdade fiquei por dentro da precariedade da educação. Recém-formada, carregava o sonho de transformar esse cenário, mas sozinha não faria milagres. Cheguei a me questionar se fiz a escolha certa. Hoje não tenho dúvida que sim, pois não me vejo trabalhando com outra coisa. Nada mais compensador do que observar uma turma de alunos crescer.

Como sobrevivo com um salário de 930 reais? Faço como muita gente: trabalho dois turnos para esse dinheiro dobrar, embora ainda seja pouco. No dia 10 de maio fiz um desabafo em uma audiência pública na Assembleia Legislativa, em Natal. Não tinha ensaiado nada. Estava tão indignada com algumas falas anteriores que tomei coragem para rebatê-las. Meu pronunciamento foi mais um, entre tantos, transmitido pela TV Assembleia. Naquele dia, pouca gente viu, mas depois um colega colocou no YouTube e, em pouco tempo, o vídeo caiu em outras redes sociais. Desde então, meu telefone não para de tocar. Tem gente que diz que virei celebridade – fui até no Faustão –, mas o título não me cabe. Quando chego nas escolas, meus alunos e colegas vêm me cumprimentar com festa e perguntam por que não mandei um beijo para eles quando estava diante das câmeras. É engraçado.

Minha rotina é muito corrida. Além de dar aulas, participo do sindicato, falo em greves e manifestações. Também tenho viajado muito, a convite dos sindicatos de vários Estados. Apareci outras vezes na TV – e isso é um problema, pois nem sempre consigo me arrumar como gostaria e fico preocupada com tanta exposição. A sorte é que sou muito básica, só não dispenso creme para o cabelo, pó e batom. Com tantos compromissos, sobra pouco tempo para investir em minha vida pessoal. Mesmo assim, estou começando um relacionamento e acredito que tenha encontrado um homem com uma visão de mundo parecida com a minha, o que não é nada fácil. Nossa sociedade é machista e muitas mulheres vivem presas a relações de submissão. Não vale a pena perder a liberdade só para dizer que se tem um marido. Por isso, estamos indo devagar. Jamais abriria mão dos meus valores e de minhas crenças por um homem. Acredito que o sucesso do vídeo se deva ao fato de muitas pessoas estarem inconformadas – acabei me tornando a porta-voz. É uma pena que a sociedade, principalmente os pais dos estudantes, não tenha consciência política para entender que, se a situação das escolas melhorar, os filhos deles sairão ganhando. Meu maior ideal é viver em um mundo igualitário, no qual os educadores sejam tratados com mais respeito.