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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Auxílio Reclusão: a verdade que as correntes da Internet não dizem


Muito se protesta, especialmente através de correntes de e-mails ou em redes sociais, contra o auxílio-reclusão. Os protestos enfurecidos atacam os brios dos brasileiros, dizem seguramente que os trabalhadores pagam a conta para que os detentos apenas usufruam de R$915,00 por filho, entre outras declarações que acabam por gerar revolta em quem as lê.

O auxílio-reclusão é um benefício previdenciário que ainda gera muita polêmica. Mas isso se deve, em sua maior parte, ao desconhecimento de seus reais aspectos, tais como: beneficiários, valores, condições, etc.

É possível conceituar o auxílio-reclusão como o benefício previdenciário devido aos dependentes do segurado recolhido à prisão, durante sua permanência em regime fechado ou em regime semi-aberto.

Inicialmente, é fundamental observar, no conceito acima traçado, quem são os beneficiários. O referido benefício não é devido ao indivíduo recolhido à prisão, mas aos seus dependentes. Uma vez recolhido à prisão, o indivíduo, outrora provedor do sustento da família, deixa de auferir renda. O benefício previdenciário é, então, a única garantia de sustento para a família que antes dependia da renda do indivíduo.
Retirar das famílias a possibilidade de receber um benefício previdenciário em razão de seu provedor estar recolhido à prisão fere, de plano, um dos princípios fundamentais do Direito Penal brasileiro, que é o princípio da intransmissibilidade da pena. O referido princípio preceitua que a pena não passará da pessoa do condenado. Ou seja, é absurda qualquer hipótese de se estender uma pena a terceiros, não responsáveis pela conduta criminosa.

Dessa forma, o auxílio-reclusão nada mais é do que a garantia de que a família de um indivíduo recolhido à prisão não será “penalizada” com uma interrupção de parte de sua renda de forma abrupta e por tempo indeterminado.

Ademais disso, para que os dependentes façam jus ao benefício não basta estar o indivíduo recolhido à prisão em regime fechado ou semi-aberto. É necessário que o mesmo seja contribuinte do INSS. Caso contrário, sua família não faz jus ao benefício. As correntes online, através de frases incompletas, tentam fazer crer que o auxílio-reclusão é devido em toda e qualquer situação de recolhimento à prisão, o que, definitivamente, não é verdade.

Importante observar ainda que o benefício é pago com orçamento da Previdência Social. O orçamento, por sua vez, é obtido através das contribuições dos filiados ao INSS. Ou seja, quem paga o auxílio-reclusão são os contribuintes do INSS, através das contribuições previdenciárias, e não todos os brasileiros, através de impostos, taxas, etc.

O INSS funciona como um seguro de automóvel, por exemplo. Todos os segurados contribuem e o seguro presta a assistência aos que necessitam. Há prazos de carência para alguns benefícios. Mas não é o caso do auxílio-reclusão. A partir da primeira contribuição previdenciária e enquanto o segurado mantiver esta qualidade, seus dependentes terão direito ao benefício.

Os contribuintes do INSS não pagam a conta apenas dos beneficiários presos. Pagam também a conta dos aposentados, dos enfermos, das viúvas, enfim. Protestar por financiar o auxílio-reclusão em nada se diferencia de protestar por financiar as aposentadorias dos idosos, por exemplo.

Além disso, há um segundo filtro para a concessão do benefício. Dentre os contribuintes do INSS somente os de baixa renda fazem jus ao auxílio-reclusão. Os contribuintes de baixa renda são aqueles que, na data do recolhimento à prisão, tiveram como último salário de contribuição o valor igual ou inferior a R$915,05, de acordo com a Portaria nº 02, de 6/1/2012.

Qual é o valor do benefício?
Ao contrário das correntes online, que afirmam ser o auxílio-reclusão um benefício no valor de R$915,05, esta é apenas a renda limite para a concessão do benefício.

O auxílio-reclusão terá valor correspondente a 100% do salário-de-benefício, que, por sua vez, é a média dos 80% maiores salários-de-contribuição do período contributivo, a contar de julho de 1994. Dessa forma, o valor do auxílio-reclusão não é fixo e vai variar de acordo com as contribuições de cada segurado.
Há que se observar também que o benefício não é pago no valor “x” por dependente e sim no valor “x” por família. Contrariando as falácias acerca do tema, que projetam uma renda mensal de R$4575,25 às custas do benefício para uma família de cinco pessoas, essa família, independentemente de contar com 5, 10, 15 membros, receberá um valor fixo mensal que no máximo pode atingir os R$915,05.

Outrossim, a família do segurado deve apresentar trimestralmente ao INSS documento que ateste que o segurado permanece preso, sob pena de suspensão do benefício. O que comprova, mais uma vez, que este benefício previdenciário não é pago levianamente. Existe todo o controle necessário para que somente o recebam as famílias que a ele fazem jus.

O auxílio-reclusão deixa de ser pago na hipótese de falecimento do segurado preso, quando então é convertido em pensão por morte. Também deixa de ser pago em caso de aposentadoria ou recebimento de auxílio-doença, quando o segurado e seus dependentes poderão optar, mediante declaração escrita, pelo recebimento do benefício mais vantajoso. As outras hipóteses de suspensão do benefício serão discutidas em parágrafos específicos.

O benefício deixa de ser pago também ao dependente que perder esta qualidade. Por exemplo, o filho que se emancipar ou completar 21 anos de idade, salvo se inválido, quando a qualidade de dependente subsistirá enquanto durar a invalidez. Os eloquentes protestos contra o auxílio-reclusão jamais mencionam que o benefício não é pago em caráter perpétuo. A partir de determinada idade o dependente deixa de receber o benefício.
A última hipótese, porém mais importante, de cessação do benefício é a que trata da suspensão em caso de fuga, liberdade condicional, transferência para prisão albergue ou cumprimento da pena em regime aberto. Com foco especial na hipótese da fuga, é possível concluir que o auxílio-reclusão é também uma espécie de incentivo ao preso, para que cumpra sua pena regularmente.

Desta forma, necessária se faz uma ponderação acerca dos inflamados discursos promovidos em e-mails e redes sociais, uma vez que o auxílio-reclusão é um benefício previdenciário fundamental, não para “sustentar vagabundos” e sim para não deixar desamparadas milhares de famílias que, em decorrência de um recolhimento à prisão, perdem grande parte ou até mesmo a totalidade de sua renda.

Portanto, antes de compartilhar com outras pessoas informações levianas e distorcidas acerca do auxílio-reclusão, é importante conhecer o real aspecto do benefício, seus beneficiários, sua função, etc. Tais informações podem ser encontradas no site da previdência social, na parte superior do lado direito, no campo “Benefícios da Previdência Social”.



Fonte: www.revistadinamica.net

quarta-feira, 6 de março de 2013

Tempos Modernos e o Fim do Verbo

Compartilho abaixo essa interessante reflexão do grande Carlos Santos sobre a comunicação nos tempos modernos. Vale a pena ler.


TEMPOS MODERNOS E O FIM DO VERBO

Confesso-lhes minha indisposição para boates: antes mesmo da tragédia de Santa Maria-RS, que se diga.

Luzes estroboscópicas, sirenes, fumaça, músicas eletrônicas, gente gritando, pessoas batendo umas nas outras.

Gosto de música, mas não imponho a ninguém meus gostos. Gosto de gente, porém não obrigo ninguém a me aceitar.

Prefiro a música em espaços em que eu possa conversar. Nada, nenhuma tecnologia, substituirá o face to face, a prosa presencial.

Mas estamos permitindo que a "modernidade" nos tire um grande diferencial nosso, como seres humanos: o poder da intercomunicação direta. 

Estamos suprimindo a própria fala.

Há algo mais estúpido nesses ditos tempos modernos? 

No princípio foi o verbo e nosso fim será não ter o direito à fala?



sábado, 20 de outubro de 2012

É a escola a normatizadora social?






A legenda da foto é essa:

“O que vocês pensam sobre essa imagem? Alguns acham que é para evitar cópia e filas. Eu discordo. Acho que é de pensamento quadrado, iguais para todos, provas decorebas, onde as ideias não são livres. E você o que tem a dizer?”

E a descrição da página  diz:

“Segundo Paulo Freire, a educação tem a função de libertar, de abrir a mente, de conscientizar e fazer com que as pessoas reflitam sobre suas ações e tomem seu lugar de protagonistas de suas próprias histórias…”

Algumas considerações:

1 – Como ser “libertadora” uma educação em que os próprios professores são subjugados, acachapados, explorados em seus salários, postos em 2, 3 ou mais empregos, com 3, 4 ou mesmo 6 turmas em cada um e com 25, 30 ou mais de 40 alunos em cada turma?

2 – Diz o senso comum que o “pensamento quadrado, iguais (sic) para todos, (…) onde as ideias não são livres” é próprio da escola. Diz o senso comum que as crianças assim são por causa da escola.

Ora, os alunos passam 4 horas por dia na escola. Passam 20 horas por dia “no mundo”.

No mundo, eles assistem televisão: faustão, ratinho, luciano hulk, xuxa, zorra total, big brother…

No mundo, eles ficam em casa: sub-moradias umas em cima das outras, sem ventilação adequada, com poucos cômodos e muitas pessoas em cada casa…

No mundo, eles ficam na rua: sem saneamento, sem praças, sem áreas de lazer decentes, sem árvores…

No mundo, eles não têm acesso a cinema de qualidade, teatro, música decente… mas eles vão a bailes funk…

No mundo, eles se relacionam com traficantes e são, muitas vezes, subjugados pela violência, seja do próprio tráfico, seja de milícias, seja da própria polícia, feita para o topo da pirâmide…

No mundo, eles não têm acesso a livros nem leitura de qualquer espécie… sim, talvez jornais de manchetes com cabeças cortadas e mulheres de biquíni na capa…

No mundo, os “heróis” deles e as pessoas às quais o “mundo” demonstra que eles têm que ter como espelho são os traficantes, os jogadores de futebol, os cantores de pagode, os heróis do big brother…

Mas tudo isso que eles não têm e, para além disso, algo diferente do que eles têm no mundo, no entanto, é tentado oferecer dentro daquelas 4 horinhas que eles ficam dentro da escola.

Mas, pela pressão “do mundo”, nada disso os interessa e ficamos nós, na escola, tentando oferecer a eles algo que eles não querem e o mundo diz que não é importante.

Mas o senso comum é que a escola é que é uniformizadora!

Enquanto este pensamento persistir – presente, inclusive, em quase todos os “especialistas” em educação – , a escola, sozinha, não conseguirá mudar o quadro.

A educação “é dever de toda sociedade” apenas na letra morta da Lei.

No mundo real, é ela contra o mundo.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira





quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Inveja do inconformismo alheio*

O texto abaixo fora originalmente postado por Fernando G. C. Amaral em seu perfil no Facebook, onde comenta acerca do fato ocorrido no aniversário do movimento Ocupa Wall Street, em Nova York (clique aqui para saber mais).

Foto:  http://ponto.outraspalavras.net

"Tenho cá, aqui neste feice e lá no mundo mesmo, amigos e amigas que torcem o nariz para qualquer tipo de manifestação de rua. É cousa de baderneiro, de quem não tem o que fazer, falta de tanque alguns se adiantam e flertam com seus próprios preconceitos, precisam lavar mais louça.

O que assusta as pessoas, me pergunto? A vidinha de merda, cartesiana, de todo dia acordar cedo, escovar os dentes, enxágue bucal, café com leite desnatado e pão com margarina livre de açúcares e gorduras, trânsito para ir, conta para pagar... deve ser muito linda esta vida. O que nos assusta é que outros não estejam assustados. Talvez, lá no fundo, o que nos assusta é uma ponta de inveja do inconformismo alheio.

Sei lá... enfim... é isso. (nossa, que profundo!)"



* Título criado pela autora do blog.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Doutor Advogado e Doutor Médico: até quando?


Por que o uso da palavra “doutor” antes do nome de advogados e médicos ainda persiste entre nós? E o que ela revela do Brasil?

Por ELIANE BRUM*



Sei muito bem que a língua, como coisa viva que é, só muda quando mudam as pessoas, as relações entre elas e a forma como lidam com o mundo. Poucas expressões humanas são tão avessas a imposições por decreto como a língua. Tão indomável que até mesmo nós, mais vezes do que gostaríamos, acabamos deixando escapar palavras que faríamos de tudo para recolher no segundo seguinte. E talvez mais vezes ainda pretendêssemos usar determinado sujeito, verbo, substantivo ou adjetivo e usamos outro bem diferente, que revela muito mais de nossas intenções e sentimentos do que desejaríamos. Afinal, a psicanálise foi construída com os tijolos de nossos atos falhos. Exerço, porém, um pequeno ato quixotesco no meu uso pessoal da língua: esforço-me para jamais usar a palavra “doutor” antes do nome de um médico ou de um advogado.  


Travo minha pequena batalha com a consciência de que a língua nada tem de inocente. Se usamos as palavras para embates profundos no campo das ideias, é também na própria escolha delas, no corpo das palavras em si, que se expressam relações de poder, de abuso e de submissão. Cada vocábulo de um idioma carrega uma teia de sentidos que vai se alterando ao longo da História, alterando-se no próprio fazer-se do homem na História. E, no meu modo de ver o mundo, “doutor” é uma praga persistente que fala muito sobre o Brasil. Como toda palavra, algumas mais do que outras, “doutor” desvela muito do que somos – e é preciso estranhá-lo para conseguirmos escutar o que diz. 

Assim, minha recusa ao “doutor” é um ato político. Um ato de resistência cotidiana, exercido de forma solitária na esperança de que um dia os bons dicionários digam algo assim, ao final das várias acepções do verbete “doutor”: “arcaísmo: no passado, era usado pelos mais pobres para tratar os mais ricos e também para marcar a superioridade de médicos e advogados, mas, com a queda da desigualdade socioeconômica e a ampliação dos direitos do cidadão, essa acepção caiu em desuso”.  

Em minhas aspirações, o sentido da palavra perderia sua força não por proibição, o que seria nada além de um ato tão inútil como arbitrário, na qual às vezes resvalam alguns legisladores, mas porque o Brasil mudou. A língua, obviamente, só muda quando muda a complexa realidade que ela expressa. Só muda quando mudamos nós. 

Historicamente, o “doutor” se entranhou na sociedade brasileira como uma forma de tratar os superiores na hierarquia socioeconômica – e também como expressão de racismo. Ou como a forma de os mais pobres tratarem os mais ricos, de os que não puderam estudar tratarem os que puderam, dos que nunca tiveram privilégios tratarem aqueles que sempre os tiveram. O “doutor” não se estabeleceu na língua portuguesa como uma palavra inocente, mas como um fosso, ao expressar no idioma uma diferença vivida na concretude do cotidiano que deveria ter nos envergonhado desde sempre.  

Lembro-me de, em 1999, entrevistar Adail José da Silva, um carregador de malas do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, para a coluna semanal de reportagem que eu mantinha aos sábados no jornal Zero Hora, intitulada “A Vida Que Ninguém Vê”. Um trecho de nosso diálogo foi este: 

- E como os fregueses o chamam?
- Os doutor me chamam assim, ó: “Ô, negão!” Eu acho até que é carinhoso.
- O senhor chama eles de doutor?
- Pra mim todo mundo é doutor. Pisou no aeroporto é doutor. É ó, doutor, como vai, doutor, é pra já, doutor....
- É esse o segredo do serviço?
- Tem que ter humildade. Não adianta ser arrogante. Porque, se eu fosse um cara importante, não ia tá carregando a mala dos outros, né? Sou pé de chinelo. Então, tenho que me botar no meu lugar.

A forma como Adail via o mundo e o seu lugar no mundo – a partir da forma como os outros viam tanto ele quanto seu lugar no mundo – contam-nos séculos de História do Brasil. Penso, porém, que temos avançado nas últimas décadas – e especialmente nessa última. O “doutor” usado pelo porteiro para tratar o condômino, pela empregada doméstica para tratar o patrão, pelo engraxate para tratar o cliente, pelo negro para tratar o branco não desapareceu – mas pelo menos está arrefecendo. 

Se alguém, especialmente nas grandes cidades, chamar hoje o outro de “doutor”, é legítimo desconfiar de que o interlocutor está brincando ou ironizando, porque parte das pessoas já tem noção da camada de ridículo que a forma de tratamento adquiriu ao longo dos anos. Essa mudança, é importante assinalar, reflete também a mudança de um país no qual o presidente mais popular da história recente é chamado pelo nome/apelido. Essa contribuição – mais sutil, mais subjetiva, mais simbólica – que se dá explicitamente pelo nome, contida na eleição de Lula, ainda merece um olhar mais atento, independentemente das críticas que se possa fazer ao ex-presidente e seu legado. 

Se o “doutor” genérico, usado para tratar os mais ricos, está perdendo seu prazo de validade, o “doutor” que anuncia médicos e advogados parece se manter tão vigoroso e atual quanto sempre. Por quê? Com tantas mudanças na sociedade brasileira, refletidas também no cinema e na literatura, não era de se esperar um declínio também deste doutor? 

Ao pesquisar o uso do “doutor” para escrever esta coluna, deparei-me com artigos de advogados defendendo que, pelo menos com relação à sua própria categoria, o uso do “doutor” seguia legítimo e referendado na lei e na tradição. O principal argumento apresentado para defender essa tese estaria num alvará régio no qual D. Maria, de Portugal, mais conhecida como “a louca”, teria outorgado o título de “doutor” aos advogados. Mais tarde, em 1827, o título de “doutor” teria sido assegurado aos bacharéis de Direito por um decreto de Dom Pedro I, ao criar os primeiros cursos de Ciências Jurídicas e Sociais no Brasil. Como o decreto imperial jamais teria sido revogado, ser “doutor” seria parte do “direito” dos advogados. E o título teria sido “naturalmente” estendido para os médicos em décadas posteriores. 

Há, porém, controvérsias. Em consulta à própria fonte, o artigo 9 do decreto de D. Pedro I diz o seguinte: “Os que frequentarem os cinco anos de qualquer dos Cursos, com aprovação, conseguirão o grau de Bacharéis formados. Haverá também o grau de Doutor, que será conferido àqueles que se habilitarem com os requisitos que se especificarem nos Estatutos, que devem formar-se, e só os que o obtiverem, poderão ser escolhidos para Lentes”. Tomei a liberdade de atualizar a ortografia, mas o texto original pode ser conferido aqui. “Lente” seria o equivalente hoje à livre-docente. 

Mesmo que Dom Pedro I tivesse concedido a bacharéis de Direito o título de “doutor”, o que me causa espanto é o mesmo que, para alguns membros do Direito, garantiria a legitimidade do título: como é que um decreto do Império sobreviveria não só à própria queda do próprio, mas também a tudo o que veio depois? 
O fato é que o título de “doutor”, com ou sem decreto imperial, permanece em vigor na vida do país. Existe não por decreto, mas enraizado na vida vivida, o que torna tudo mais sério. A resposta para a atualidade do “doutor” pode estar na evidência de que, se a sociedade brasileira mudou bastante, também mudou pouco. A resposta pode ser encontrada na enorme desigualdade que persiste até hoje. E na forma como essas relações desiguais moldam a vida cotidiana. 

É no dia a dia das delegacias de polícia, dos corredores do Fórum, dos pequenos julgamentos que o “doutor” se impõe com todo o seu poder sobre o cidadão “comum”. Como repórter, assisti à humilhação e ao desamparo tanto das vítimas quanto dos suspeitos mais pobres à mercê desses doutores, no qual o título era uma expressão importante da desigualdade no acesso à lei. No início, ficava estarrecida com o tratamento usado por delegados, advogados, promotores e juízes, falando de si e entre si como “doutor fulano” e “doutor beltrano”. Será que não percebem o quanto se tornam patéticos ao fazer isso?, pensava. Aos poucos, percebi a minha ingenuidade. O “doutor”, nesses espaços, tinha uma função fundamental: a de garantir o reconhecimento entre os pares e assegurar a submissão daqueles que precisavam da Justiça e rapidamente compreendiam que a Justiça ali era encarnada e, mais do que isso, era pessoal, no amplo sentido do termo. 

No caso dos médicos, a atualidade e a persistência do título de “doutor” precisam ser compreendidas no contexto de uma sociedade patologizada, na qual as pessoas se definem em grande parte por seu diagnóstico ou por suas patologias. Hoje, são os médicos que dizem o que cada um de nós é: depressivo, hiperativo, bipolar, obeso, anoréxico, bulímico, cardíaco, impotente, etc. Do mesmo modo, numa época histórica em que juventude e potência se tornaram valores – e é o corpo que expressa ambas – faz todo sentido que o poder médico seja enorme. É o médico, como manipulador das drogas legais e das intervenções cirúrgicas, que supostamente pode ampliar tanto potência quanto juventude. E, de novo supostamente, deter o controle sobre a longevidade e a morte. A ponto de alguns profissionais terem começado a defender que a velhice é uma “doença” que poderá ser eliminada com o avanço tecnológico.  

O “doutor” médico e o “doutor” advogado, juiz, promotor, delegado têm cada um suas causas e particularidades na história das mentalidades e dos costumes. Em comum, o doutor médico e o doutor advogado, juiz, promotor, delegado têm algo significativo: a autoridade sobre os corpos. Um pela lei, o outro pela medicina, eles normatizam a vida de todos os outros. Não apenas como representantes de um poder que pertence à instituição e não a eles, mas que a transcende para encarnar na própria pessoa que usa o título.  

Se olharmos a partir das relações de mercado e de consumo, a medicina e o direito são os únicos espaços em que o cliente, ao entrar pela porta do escritório ou do consultório, em geral já está automaticamente numa posição de submissão. Em ambos os casos, o cliente não tem razão, nem sabe o que é melhor para ele. Seja como vítima de uma violação da lei ou como autor de uma violação da lei, o cliente é sujeito passivo diante do advogado, promotor, juiz, delegado. E, como “paciente” diante do médico, como abordei na coluna anterior, deixa de ser pessoa para tornar-se objeto de intervenção. 

Num país no qual o acesso à Justiça e o acesso à Saúde são deficientes, como o Brasil, é previsível que tanto o título de “doutor” permaneça atual e vigoroso quanto o que ele representa também como viés de classe. Apesar dos avanços e da própria Constituição, tanto o acesso à Justiça quanto o acesso à Saúde permanecem, na prática, como privilégios dos mais ricos. As fragilidades do SUS, de um lado, e o número insuficiente de defensores públicos de outro são expressões dessa desigualdade. Quando o direito de acesso tanto a um quanto a outro não é assegurado, a situação de desamparo se estabelece, assim como a subordinação do cidadão àquele que pode garantir – ou retirar – tanto um quanto outro no cotidiano. Sem contar que a cidadania ainda é um conceito mais teórico do que concreto na vida brasileira. 

Infelizmente, a maioria dos “doutores” médicos e dos “doutores” advogados, juízes, promotores, delegados etc estimulam e até exigem o título no dia a dia. E talvez o exemplo público mais contundente seja o do juiz de Niterói (RJ) que, em 2004, entrou na Justiça para exigir que os empregados do condomínio onde vivia o chamassem de “doutor”. Como consta nos autos, diante da sua exigência, o zelador retrucava: “Fala sério....” Não conheço em profundidade os fatos que motivaram as desavenças no condomínio – mas é muito significativo que, como solução, o juiz tenha buscado a Justiça para exigir um tratamento que começava a lhe faltar no território da vida cotidiana. 

É importante reconhecer que há uma pequena parcela de médicos e advogados, juízes, promotores, delegados etc que tem se esforçado para eliminar essa distorção. Estes tratam de avisar logo que devem ser chamados pelo nome. Ou por senhor ou senhora, caso o interlocutor prefira a formalidade – ou o contexto a exija. Sabem que essa mudança tem grande força simbólica na luta por um país mais igualitário e pela ampliação da cidadania e dos direitos. A estes, meu respeito.  

Resta ainda o “doutor” como título acadêmico, conquistado por aqueles que fizeram doutorado nas mais diversas áreas. No Brasil, em geral isso significa, entre o mestrado e o doutorado, cerca de seis anos de estudo além da graduação. Para se doutorar, é preciso escrever uma tese e defendê-la diante de uma banca. Neste caso, o título é – ou deveria ser – resultado de muito estudo e da produção de conhecimento em sua área de atuação. É também requisito para uma carreira acadêmica bem sucedida – e, em muitas universidades, uma exigência para se candidatar ao cargo de professor.

Em geral, o título só é citado nas comunicações por escrito no âmbito acadêmico e nos órgãos de financiamento de pesquisas, no currículo e na publicação de artigos em revistas científicas e/ou especializadas. Em geral, nenhum destes doutores é assim chamado na vida cotidiana, seja na sala de aula ou na padaria. E, pelo menos os que eu conheço, caso o fossem, oscilariam entre o completo constrangimento e um riso descontrolado. Não são estes, com certeza, os doutores que alimentam também na expressão simbólica a abissal desigualdade da sociedade brasileira.

Estou bem longe de esgotar o assunto aqui nesta coluna. Faço apenas uma provocação para que, pelo menos, comecemos a estranhar o que parece soar tão natural, eterno e imutável – mas é resultado do processo histórico e de nossa atuação nele. Estranhar é o verbo que precede o gesto de mudança. Infelizmente, suspeito de que “doutor fulano” e “doutor beltrano” terão ainda uma longa vida entre nós. Quando partirem desta para o nunca mais, será demasiado tarde. Porque já é demasiado tarde – sempre foi. 

Eliane Brum é jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de um romance - Uma Duas (LeYa) - e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo). E codiretora de dois documentários: Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada. elianebrum@uol.com.br e @brumelianebrum

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O tal julgamento do século

Imagem: http://noticias.uol.com.br


A partir de amanhã voltaremos aos monocórdios...

O julgamento do tal crime do século, o "mensalão", tomará conta do noticiário. Será a luta do bem contra o mal, o trololó do "só acontece no Brasil" e cousas do gênero.

Odeio o "mensalão". Por inúmeras razões o considero um dos mais execráveis exemplos de como estamos perdendo nossa capacidade de crítica e de reflexão em nome de uma estúpida – repito, estúpida - guerra de torcidas.

O episódio é, sim, um divisor de águas importante. Uma parcela do PT ruiu com o episódio. Entretanto, não foi a ocorrência ou não do valerioduto a responsável pela saída, pelo distanciamento, pela ojeriza. Houve um processo de degeneração em que o mensalão pode ser considerado a cereja do bolo, o broche que puiu o vestido. É este processo que deveria ser enfrentado por todos, com coragem, que fizeram e fazem parte do PT e que fizeram e fazem parte da esquerda no país.

O "mensalão" como mesada para parlamentares no Congresso Nacional parece que não existiu. Não há provas da mesada. Não há ligações das votações no congresso e os recebimentos de numerários por parlamentares. Ademais, muitos parlamentares agraciados eram do partido do governo o que dá a tese da mesada um status de carochinha. Bom, mas, porém, contudo, entretanto, é tão evidente quanto à luz do sol que o episódio não se restringiu a um "mero" caixa dois de campanha, de "financiamento ilegal de campanhas políticas". Este é o maior equívoco do PT: tapar a luz do sol. Circularam recursos provenientes de diversas fontes para abastecer cofres de partidos e de políticos e houve, sim, enriquecimento de alguns. Ora, o enriquecimento se prova pela alteração de "status" social, pela mudança de hábitos, pelo aumento do "consumo". E houve, sim, a utilização desses recursos como forma de pressionar e criar uma "maioria" parlamentar - do tipo, "olha lá como vota porque do contrário àquela sua dívida de campanha não será quitada..." - e uma folgada maioria partidária, interna - do tipo “olha lá como vota porque do contrário àquela sua dívida de campanha não será quitada”.

Mas o mais nojento do episódio é a demonstração da "nossa indignação seletiva". O movimento de combate à corrupção passa a ser na grande mídia (paremos com esta bazófia de PIG, esta bobagem inventada para justificar o injustificável) um movimento de desgaste do PT e do Lula, somente. Não se fazem matérias sobre a compra de votos no processo que alterou a Constituição da República para conferir à FHC a possibilidade da reeleição. Não repercutiram as denúncias sobre as falcatruas generalizadas, amplas e irrestritas dos processos de privatização. Não se fala da Alstom e das obras do metropolitano em São Paulo. Nunca mais se falou da inspeção veicular na cidade de São Paulo.

Agora chegou a hora do julgamento no STF. O que é outra excrescência, em razão do julgamento só ocorrer na Corte Constitucional em razão da insensatez do "foro privilegiado". Mas, na regra do jogo, que o julgamento seja o que deve ser. Que dentro do que está comprovado nos autos, seja a mesada, seja a cooptação, seja o caixa dois, seja o diacho a quatro, punidos e com o rigor que a lei exige. Que nos casos onde a prova foi impossível, que a regra do direito valha acima das regras de conveniências da "opinião pública".

Mas, sobretudo, que tenhamos coragem de sair deste episódio com menos cinismo. Que comecemos a exigir o financiamento público de campanha e mandar para o ostracismo aqueles que convenientemente deixam este debate ao relento, tanto nos partidos como no Congresso Nacional. Que comecemos a entender que as regras do processo eleitoral devem ser rígidas, mas devem ser de fácil interpretação, que não dependam de interpretações de gente iluminada. Que comecemos a enfrentar, de fato, a questão da democratização dos meios de comunicação, com o intuito de estimular a pluralidade de opiniões e diminuir espaços para calúnias, difamações, falatórios, fofocas nos meios de informação e formação de opinião. Que discutamos as razões da publicidade oficial, afinal o "valerioduto" - o tucano de Minas e o petista - nasceram da utilização de uma "agência de publicidade" como "intermediária" das operações, ser tão custosa, tão cara e tão desregulamentada (o princípio da impessoalidade é ofendido em grassa maioria das propagandas chamadas institucionais).

E que o PT saia da letargia, deixe de colocar a culpa em outrem, e entenda que não dá para fugir deste debate em nome de uma "pseudo" superioridade programática. Há que se reconhecer que no mínimo houve um grotesco, um gigante, um monumental erro político. Que este erro custou muito caro ao partido. E, porque não, custou muito caro à nossa história.

Por fim, o texto é repleto de ironias. Ter que explicar ironia mostra que o texto está é malfeito. Neste caso, este palpiteiro pede perdão. É o fígado que escreve. Odeio o “mensalão”.



Fernando Amaral



quinta-feira, 5 de julho de 2012

Macunaíma vive e corrompe

Por Rinaldo Barros (*) 


Imagem: Macunaíma (protagonista do romance homônimo de Mário de Andrade, interpretado
em filme pelo saudoso ator Grande Otelo) anti-herói com sua frase característica: “
Aí que preguiça!


Faz dias que ando assuntando sobre o significado de tudo isso que estamos vivendo. Cogito se não estaríamos vivendo “entre dois mundos: um definitivamente morto e outro que luta por vir à luz”. Busquei nos mestres do século passado uma possível fonte para compreender esta charada. Fixei-me em Macunaíma.

Segundo o próprio autor, Mário de Andrade, Macunaíma representa "a aceitação sem timidez nem vanglória da entidade nacional", concebida como o retrato cultural do povo brasileiro, índio branco, feiticeiro, mau caráter, preguiçoso, mentiroso, egoísta, gozador, capaz de rir de si próprio e de nunca perder uma piada. Terreno fértil para, frente à impunidade, florescer atos de corrupção, praticados com naturalidade, sem que sejam vinculados com a questão da ética ou com a moral vigente.  Como se fossem coisas separadas.

Pequenas corrupções cotidianas são consideradas “defesas”, expressão muito usada por diversos segmentos da população. Um passo para aceitar a corrupção de todos os níveis.
Macunaíma poderia ser a metáfora de uma crise, mas também pode ser tomado como um desafio a ser vencido. O povo brasileiro teria sido formado historicamente de forma a ser capaz de adaptar-se, no cotidiano, a inúmeras formas de estratégias de sobrevivência.

Capacitou-se a conviver “espertamente” com situações adversas de exploração, violência, corrupção, miséria moral, discriminação, desemprego, analfabetismo, utilizando-se das armas ou mecanismos psicológicos os mais diversos. A arma mais utilizada é o humor. Mentir talvez seja a vice-campeã. Impontualidade e Hipocrisia disputam pau-a-pau.

Relembro agora que aprendemos com Gilberto Freire que a família patriarcal determinou toda estrutura social e as relações com o poder público. Formou-se sociologicamente “uma invasão do público pelo privado, do Estado pela Família”.

Para complicar ainda mais, nossa cultura tem como traço definidor sua diversidade e ao mesmo tempo o sincretismo de várias manifestações antropológicas, principalmente negras, índias e portuguesas. Assume dimensão gigantesca o problema da mestiçagem do povo brasileiro.

A mestiçagem é uma não-identidade. Somos todo mundo e não somos ninguém. Darcy Ribeiro, em seu ótimo O Povo Brasileiro, falou sobre o conceito de ninguémdade.

Ou seja, os brasileiros somos brancos que não são brancos, negros que não são negros, índios que não são índios.

Essa faceta adaptativa de nossa complexidade foi comprovada recentemente em pesquisa do IBOPE, cujo resultado aponta na direção da aceitação generalizada do nepotismo, do patrimonialismo (invasão do público pelo privado) e da corrupção eleitoral.

A pergunta “Você venderia o seu voto?” tem resposta imediata e sem pejo: “Depende do preço que você pagar”.

O Ibope tem pesquisa, não publicada, reveladora do grau dessa característica nacional: quase 75 por cento dos entrevistados admite que conviveria com a corrupção, se estivesse em cargo público. Na base do “todo mundo faz”.

Para terminar, a urbanização ocorrida em velocidade vertiginosa nos últimos quarenta anos expulsou milhões de trabalhadores rurais (caipiras) para os centros urbanos, lançando nas cidades muito mais gente do que as fábricas conseguiram ocupar.

São milhões de pessoas cujo único compromisso é consigo mesmo, com sua sobrevivência. A vida famélica não lhes deu oportunidade de perceber que existem princípios éticos em nosso mundo, menos ainda que a civilização somente será construída a partir da cidadania.

Resumo da ópera: provavelmente, “tudo continuará como dantes no quartel de Abrantes” durante um bom tempo. Até porque essas questões são estruturais, históricas, sistêmicas, e não serão resolvidas com a eleição de um “Salvador da Pátria” ou de um “Macunaíma”.

Oxalá, quem sabe, a cidadania venha à luz pela geração dos meus netos!



(*) Rinaldo Barros é professor – rb@opiniaopolitica.com - http://opiniaopolitica.com

terça-feira, 24 de abril de 2012

LABATUT

Monstro Labatut

Dias atrás escrevi e foi tornado público o artigo intitulado: Monumento para Apodi, ressaltando que a sua história é rica em dados que sobressaem da área municipal, porém é esquecida por falta de monumentos que simbolizem tais passagens na referida cidade. 

Retratei como ponto principal a histórica morte do Padre Felipe Bourel e da primeira tela pintada no Rio Grande do Norte, que foi no Apodi em 1709, como bem registrou o escritor Olavo Medeiros em seu livro “Notas para a História do RN”. Tais fatos documentados são merecedores de se erguer monumento para a posteridade. Ainda, por reportar sobre a lenda de Labatut na Chapada de Apodi mencionada no livro “1822”, de Laurentino Gomes, fato que me fez receber via e-mail, do escritor mossoroense David Leite queixando-se do autor daquele livro, por sinal um dos mais vendidos em 2011, não ter citado quem primeiro registrou a lenda folclórica de Labatut (pronúncia no francês [labaty]), pois David Leite em conversa recente com o renomado escritor Manoel Onofre falou que iria remeter missiva ao jornalista Laurentino Gomes pedindo justiça por ter esquecido o escritor apodiense – José Martins de Vasconcelos, radicado em Mossoró desde cedo, pioneiro do registro da fábula Labatut. Ainda enaltecendo, David Leite nos relembra, ao dizer ser Martins de Vasconcelos, também, o primeiro potiguar a publicar livro de contos. Salve nossa cultura! 

Assim, aqui quero fazer justiça ao autodidata, escritor, poeta, contista, jornalista, folclorista, professor e compositor - Martins de Vasconcelos, descrevendo breve relato da origem e lenda Labatut, pegando ‘carona’ em sua obra: Obras Completas, de 1918 e do livro e autor já mencionado acima – 1822. De acordo com o autor do livro supracitado, a lenda de Labatut é proveniente dos acontecimentos da Independência do Brasil, na qual, participara de forma significativa para a concretude de tornar nosso país em império e livre da metrópole, o general francês Pierre Labatut, que organizou exército, comandante na batalha dos Periquitos, recrutou agricultores, pobres, escravos, crioulos, plantadores de açúcar, fumo e mandioca. Comandou a guerra de Independência da Bahia, independência do Ceará e revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul. Morreu em 1849 aos 73 anos, em Salvador. “O nome Labatut porém perpetuou de forma curiosa no folclore do sertão nordestino”. Esse personagem militar da história da independência nos chega entremeados de estória enriquecendo lenda dos habitantes da Chapada do Apodi. É notável o registro valioso dessa fábula mítica, como algo que nos remetem tal qual o popular conto do lobisomem, que tantas crianças peraltas e impertinentes da minha geração ouviram através dos adultos para deixá-las calminhas e receosas do que poderia lhe acontecer por maus comportamentos, isso foi muito forte no tempo em que muitas cidadelas do interior não tinham ainda nos postes das ruas, de noites ermas, a energia de Paulo Afonso. José Martins de Vasconcelos, no início do século XX, nesse modo, descreve o que sua genitora, quando ainda criança, lhe repassava, ao contar: 

Era noite e a cidade dormia pacificamente em seu habitual conchego sertanejo. 

– Cala êsse assobio menino... gritava minha mãe... 

Era a hora em que todos de casa descansavam da labuta e dormiam placidamente. 

– Cala êsse assobio menino! Não ouves?!... 

– O que? Indaguei curioso e insistente, procurando descobrir naquilo alguma pieguice para zombar... 

– Então não ouves o tropel de Labatut? Escuta... êle vem na ventania que já se aproxima rugindo! O vento geme longe... êle vem... ao sair da lua entrará na cidade e como um cão danado devorará tudo que encontrar: homens, mulheres e meninos!... Ai do que cair às suas mãos, porque jamais verá os seus queridos entes - irá dormir eternamente nas suas entranhas insaciáveis, cheias de fogo! 


Na descrição do Labatut que “vagava” nas noites do imaginário dos apodienses, ainda decifra Martins de Vasconcelos, era: “um bicho pior que o lobisomem, pior que a burrinha e pior que a caipora e mais terrível que o cão-roxo!... Os pés são redondos, as mãos compridas, os cabelos longos e assanhados, corpo cabeludo, como o porco espinho, só tem um olho na testa como os ciclopes da fábula e os dentes são como as presas do elefante! Êle gosta mais dos meninos”... 

Taí um registro histórico de uma estória da nossa antropologia cultural! A lenda Labatut merece ser eternizado através de monumento que poderia ser construído, um pórtico esplêndido, no cume da ladeira da Chapada de Apodi, no entroncamento da BR 405 com a estrada do Lajedo Soledade, para que não fique só nos livros de José Martins de Vasconcelos e Laurentino Gomes, já que neste país se ler e se compra livro muitíssimo pouco. Seria um marco respaldado pela ciência social, para que as gerações dos shopings, da internet e dos celulares visualizem, leiam e sintam através de monumento, com uma arquitetura que simbolize e descreva o que a cultura marcou nas gerações de outrora e, como também, o quanto tem de importante o passado, cheio das tradições folclóricas que hoje aos poucos vão sendo esquecidas tais quais os nossos velhos escritores. 


Natal, 13 de abril de 2012.

Nuremberg Ferreira de Sousa

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Dez Dicas para escrever artigos científicos


Se você não tem uma (boa) idéia, não tente escrever um artigo científico. A melhor opção, nesse caso, é produzir uma resenha ou um texto crítico ou de opinião a respeito de uma idéia, um tema, um autor – mesmo que o texto fique inédito. A idéia de um bom artigo pode surgir durante esse processo. 

Um bom artigo deve conter uma (boa) idéia, mas não muitas boas idéias. É importante, portanto, que você tenha claro qual é sua melhor idéia. Caso você não tenha apenas uma (boa) idéia, mas sim várias, e queira escrever um artigo, é recomendável optar por uma das alternativas a seguir: (i) hierarquizá-las, para deixar claro qual delas será tratada; (ii) planejar a escrita de vários artigos, cada um sobre uma das suas idéias (nesse caso, é recomendável que você não os escreva simultaneamente, pois isso significa escolher alguma como prioritária, ou seja, significa voltar ao item precedente); (iii) fundir as várias idéias em uma só, que seja consistente, sem ser excessivamente genérica.
No entanto, para escrever um artigo cientifico, é preciso, além de uma boa idéia (singular ou composta), usar teorias, informações e/ou dados oriundos de uma pesquisa. A função principal de um artigo é precisamente a de apresentar sinteticamente à comunidade científica os resultados de suas mais recentes pesquisas.

Com clareza quanto à sua boa idéia e com os resultados finais ou parciais de sua pesquisa à mão, eis dez coisas a fazer para compor um bom artigo.


  1. Antes de escrever, elabore um roteiro: tenha uma idéia clara do que você quer demonstrar, confirmar/desmentir, ilustrar, exemplificar, testar, comparar, recomendar etc. O começo, o meio e o fim do artigo devem estar claros para você antes de ele começar a ser escrito. Lembre-se: qualquer autor passa muito mais tempo revendo/reescrevendo (quase sempre mais de uma vez) os diferentes trechos de um texto, do que escrevendo-os. Por isso, o roteiro ajuda a compor a primeira versão que, em seguida, será objeto de várias revisões. Não é por acaso que vigora a máxima de que o ofício de pesquisador requer 10% de inspiração e 90% de transpiração.


  1. Valorize a fórmula consagrada de escrita chamada svp – “sujeito, verbo e predicado”. Escreva “O conselho discutiu a regra”. Não escreva “Discutiu a regra o conselho” ou “Discutiu o conselho a regra”. Usar deliberadamente a voz ativa, sempre que possível, ajuda a usar a fórmula SVP – evite usar “A regra foi discutida pelo conselho” ou “Foi discutida pelo conselho a regra”. Usar esta fórmula simples de escrita ajuda a tornar o texto claro e preciso, encurta as suas sentenças e diminui a possibilidade de cometer erros de concordância, entre outros.


  1. Evite generalidades, mas abuse dos dados. Generalidades são boas para conversa de mesa de bar. Cada afirmação do seu artigo deve ser capaz de ser respaldada por dados, achados e interpretações encontrados em artigos e textos de outros autores ou na sua própria pesquisa. Não importa tanto o que – ou quem - você usa para respaldar as suas afirmações, nem que você respalde explicitamente cada afirmação, mas elas têm que ter respaldo.


  1. “Eu acho”, “eu prefiro”, “o melhor é”, “deve ser”, “tem que ser”, “todo mundo sabe que”, “sempre foi assim”, “a tendência natural é” - nada disso dá respaldo a argumentos usados em textos científicos. Essas expressões indicam manifestações de normatividade, de opção pessoal ou de preferência. Evitar.


  1. Seja lógico: após o A, vem o B, e não o C ou o D. Releia as suas afirmações e conclusões: veja se elas têm mesmo respaldo empírico e se decorrem logicamente da sua argumentação. É muito comum o uso de expressões como “dessa maneira”, “portanto”, “segue-se que”, “assim”, “conclui-se que” etc., sem que de fato haja relação lógica entre as conclusões e as frases que a precedem. Exemplo: A: “O céu amanheceu sem nuvens.” B: “Sem nuvens não há chuva.” C: “Portanto, não choverá nas próximas semanas.” A está certo; B está certo; C pode até estar certo, mas não decorre de A nem de B. C é uma afirmação ou conclusão que não decorre rigorosamente das afirmações anteriores. Rigorosamente, C é uma suposição, mais do que uma conclusão.


  1. Mantenha as suas sentenças curtas. Para isso, a solução é simples: abuse dos pontos finais, pois eles são gratuitos, não estão ameaçados de extinção e organizam o seu texto. Sentenças longas exigem o uso excessivo de recursos como virgulas, dois pontos, pontos e virgulas, travessões, parênteses etc. Eles são também gratuitos e abundantes, mas quando usados a granel não facilitam a leitura do seu texto. Sentenças longas devem ficar para os que tem um bom domínio da língua, como os detentores do prêmio Nobel (José Saramago) ou mestres da literatura (Machado de Assis). Mas, cuidado com Guimarães Rosa: o uso recorrente de neologismos funciona muito melhor na literatura do que em textos científicos.


  1. Reserve tempo para sempre ler literatura (romances, contos, novelas, narrativas, poesias etc.), mesmo quando estiver redigindo a sua tese ou dissertação. Ler bons textos é fundamental para aprender a escrever. Procure textos que se relacionem com as suas deficiências de escrita. Por exemplo, os prolixos devem ler João Cabral de Melo Neto, e os muito secos podem escolher Vinicius de Moraes.


  1. Não use apud quando puder se referir diretamente a um autor/texto, pois este é um recurso excepcional. Leia e cite sempre o autor e o texto originais, a não ser que seja um texto antiqüíssimo que existe apenas na Biblioteca Nacional de Paris ou que esteja escrito apenas em chinês arcaico ou em aramaico.


  1. Busque sempre usar como fontes os autores mais reconhecidos, as maiores autoridades no assunto. Não é porque você teve um bom professor que escreveu um artigo ou deu uma boa aula a respeito de um assunto que ele é a referência mundial nesse assunto. Da mesma forma, não se limite a ler e a citar os autores e textos usados pelos seus professores prediletos. Aprenda a usar ferramentas que lhe permitam identificar os autores mais importantes em cada área de saber, inclusive aqueles com quem você não necessariamente concorda. No entanto, os autores não devem ser usados ou citados apenas porque são reconhecidos, mas sim porque são bons e pertinentes à construção de seu texto.

  1. Regra de ouro para publicar artigos: “quem não pesquisa, não escreve; quem não escreve, não submete; quem não submete, não é aceito; quem não é aceito, nunca será publicado;. quem não é publicado permanece anônimo, e de nada vale um cientista ou intelectual anônimo.”


Referência bibliográfica: Bursztyn, Marcel; DRUMMOND, José Augusto, NASCIMENTO, Elimar Pinheiro do. Como escrever (e publicar) um trabalho científico. Rio de Janeiro : Garamond, 2010.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Ensina a teu filho


FREI BETTO - Artigo - O Estado de S. Paulo


Ensina a teu filho que o Brasil tem jeito e que ele deve crescer feliz por ser brasileiro. Há neste país juízes justos, ainda que esta verdade soe como cacófato. Juízes que, como meu pai, nunca empregaram familiares, embora tivessem filhos advogados, jamais fizeram da função um meio de angariar mordomias e, isentos, deram ganho de causa também a pobres, contrariando patrões gananciosos ou empresas que se viram obrigadas a aprender que, para certos homens, a honra é inegociável.

Ensina a teu filho que neste país há políticos íntegros como Antônio Pinheiro, pai do jornalista Chico Pinheiro, que revelou na mídia seu contracheque de parlamentar e devolveu aos cofres públicos jetons de procedência duvidosa.

Saiba o teu filho que, no monolito preto do Banco Central, em Brasília, onde trabalham cerca de 3 mil pessoas, a maioria é honrada e, porque não é cega, indignada ante maracutaias de autoridades que deveriam primar pela ética no cargo que lhes foi confiado.

Ensina a teu filho que não ter talento esportivo ou rosto e corpo de modelo, e sentir-se feio diante dos padrões vigentes de beleza, não é motivo para ele perder a auto-estima. A felicidade não se compra nem é um troféu que se ganha vencendo a concorrência. Tece-se de valores e virtudes e desenha, em nossa existência, um sentido pelo qual vale a pena viver e morrer.

Ensina a teu filho que o Brasil possui dimensões continentais e as mais fertéis terras do planeta. Não se justifica, pois, tanta terra sem gente e tanta gente sem terra. Assim como a libertação dos escravos tardou, mas chegou, a reforma agrária haverá de se implantar. Tomara que regada com muito pouco sangue.

Saiba o teu filho que os sem-terra que ocupam áreas ociosas e prédios públicos são, hoje, chamados de "bandidos", como outrora a pecha caiu sobre Gandhi sentado nos trilhos das ferrovias inglesas e Luther King ocupando escolas vetadas aos negros.

Ensina a teu filho que pioneiros e profetas, de Jesus a Tiradentes, de Francisco de Assis a Nelson Mandela, são invariavelmente tratados, pela elite de seu tempo, como subversivos, malfeitores, visionários.

Ensina a teu filho que o Brasil é uma nação trabalhadora e criativa. Milhões de brasileiros levantam cedo todos os dias, comem aquém de suas necessidades e consomem a maior parcela de sua vida no trabalho, em troca de um salário que não lhes assegura sequer o acesso à casa própria. No entanto, essa gente é incapaz de furtar um lápis do escritório, um tijolo da obra, uma ferramenta da fábrica. Sente-se honrada por não descer ao ralo que nivela bandidos de colarinho branco com os pés-de-chinelo. É gente feita daquela matéria-prima dos lixeiros de Vitória que entregaram à polícia sacolas recheadas de dinheiro que assaltantes de banco haviam escondido numa caçamba.

Ensina teu filho a evitar a via preferencial dessa sociedade neoliberal que nos tenta incutir que ser consumidor é mais importante que ser cidadão, incensa quem esbanja fortuna e realça mais a estética que a ética.

Saiba o teu filho que o Brasil é a terra de índios que não se curvaram ao jugo português e de Zumbi, de Angelim e frei Caneca, de madre Joana Angélica e Anita Garibaldi, dom Hélder Câmara e Chico Mendes.

Ensina a teu filho que ele não precisa concordar com a desordem estabelecida e que será feliz se se unir àqueles que lutam por transformações sociais que tornem este país livre e justo. Então, ele transmitirá a teu neto o legado de tua sabedoria.

Ensina teu filho a votar com consciência e jamais ter nojo de política, pois quem age assim é governado por quem não tem e, se a maioria tiver a mesma reação, será o fim da democracia. Que o teu voto e o dele sejam em prol da justiça social e dos direitos dos brasileiros imerecidamente tão pobres e excluídos, por razões políticas, dos dons da vida.

Ensina a teu filho que a uma pessoa bastam o pão, o vinho e um grande amor. Cultiva nele os desejos do espírito. Saiba o teu filho escutar o silêncio, reverenciar as expressões de vida e deixar-se amar por Deus que o habita.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Brasil,Professor é tratado assim…Mão de Obra Barata



Há uma frase circulando pela internet, atribuída ao humorista Jô Soares, que diz: “O material escolar mais barato que existe na praça é o professor!”. Pela acidez verdadeira da oração, se a afirmação não veio do apresentador beijoqueiro, só pode ter vindo de algum representante do Governo Federal. Afinal, o descaramento com que a administração pública nacional trata os docentes deste Brasil é tão absurda que uma piadinha a mais vinda do Palácio do Planalto seria fichinha diante da seriedade do desmonte que se pretende no setor da Educação tupiniquim.



Esse é um bom momento para tratar do assunto, quando docentes de universidades e instituições federais de todo País – sem contar aqueles, ainda mais massacrados, que atuam em unidades de ensino municipais e estaduais – se organizam para deflagrar e/ou discutir greves, mobilizações e ações de enfrentamento a propostas indecentes que correm apressadas pelos corredores e plenárias da Câmara e Senado federais.


Uma dessas propostas é o Projeto de Lei Complementar 549/2010 que, resumidamente, aponta para o congelamento do salário de servidores públicos por nada menos que dez anos, além de impedir a realização de concursos para reposição de pessoal e controle a rédea curta os gastos com investimento na administração pública. Quem propõe tal absurdo é ninguém menos que a Casa Civil, autora do texto já aprovado no Senado e que tramita na Câmara dos Deputados.


Curioso é que, como abordado há poucos dias, neste espaço, há casos em que Projetos de Lei tramitam por mais de uma década em Brasília, sem que haja uma decisão a respeito da matéria. Quando o assunto é sucatear ainda mais o serviço público – em especial, aqui, a Educação – os trâmites são exemplarmente céleres. Daí, em boa parte, a correria por mobilizações, mesas de negociações e greves nas instituições Brasil afora. Como sempre, depois de acesa a centelha são os servidores quem precisam correr até Brasília para tentar apagar o incêndio.


No caso dos professores de instituições federais, existe um agravante. É que grande parte da população acredita piamente que docente de Ensino Superior, no Brasil, é rico. Belíssimo engano. Na verdade, essa é provavelmente a categoria que menos ganha entre os lotados no serviço público federal, se comparados níveis e titulações. Aliás, nem chega a isso. Uma lista de “tristes curiosidades do Brasil”, que está publicada inclusive na página e-democracia, da Câmara Federal na Internet, aponta que “um diretor sem diretoria do Senado ganha o dobro do que recebe um professor universitário federal concursado, com mestrado, doutorado e prestígio internacional”. Até ontem, ninguém da Câmara havia respondido ou mesmo retrucado a informação contida no site oficial.


Não é raro encontrar alunos nos corredores conversando sobre o status de professores, suas riquezas e afins. O que parece, de fato, é que muitos docentes evitam comentar salários não por charme de riquinho, mas por certo constrangimento. Afinal, não é difícil encontrar aluno que ganha, como autônomo, empresário ou ‘filhinho de papai’ mais do que seu professor. Não que isso seja errado ou houvesse uma competição entre classes, mas diante dos anos de estudo dedicados e da responsabilidade que carrega um docente, a situação é mesmo vergonhosa.


Vamos lá. Para se ter uma idéia, um professor de Instituto Federal com mestrado recebe, em seu vencimento básico, R$ 1.115,02. O restante do vencimento no contracheque vem de gratificações nunca incorporadas e que podem mudar ao sabor dos ventos de governos. Ali, nos IFs, a greve é por 14% de reajuste e aumento de 10% do PIB para a Educação. Em uma Universidade Federal o vencimento básico de um docente com doutorado e dedicação exclusiva – ou seja, esse profissional não pode exercer qualquer outra função fora da Instituição – é de meros R$ 2.318,71. Há uma lista de oportunidades em concursos, até mesmo para o nível médio, onde os salários iniciais passam muito acima dessas cifras. Sinceramente, você passaria por um concurso em três fases, depois de ter encarado pelo menos mais seis anos pós-graduação, para ganhar isso?


Sim, muitos se esforçam por isso. E o fazem porque professor de verdade é vocação, tem que gostar do que faz. Mas vocação, apenas, não enche barriga, não produz dividendos para criar filhos, não significa ignorância financeira. E ninguém gosta de ser tratado como “o material mais barato que existe na praça”.



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(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 5 de agosto de 2011


O texto acima me fora enviado por e-mail pela amiga e colega de profissão, Francione Brito

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Dica de leitura

Interessante a abordagem feita pela educadora Cláudia Santa Rosa acerca dos antigos problemas da educação brasileira, que ganharam destaque na mídia, nos últimos dias, devido ao vídeo em que a Profª Amanda Gurgel expõe sobre a realidade educacional do Rio Grande do Norte e do Brasil, em plena Assembleia Legislativa. O louvável posicionamento da Dra. Cláudia Santa Rosa encontra-se em seu site, através do artigo "Educação na Mídia", cuja leitura recomendo. 

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O poder da educação


Conta-se que o legislador Licurgo foi convidado a proferir uma palestra a respeito de educação. Aceitou o convite mas pediu, no entanto, o prazo de seis meses para se preparar. O fato causou estranheza, pois todos sabiam que ele tinha capacidade e condições de falar a qualquer momento sobre o tema, e por isso o haviam convidado.

Transcorridos os seis meses, compareceu ele perante a assembléia em expectativa. Postou-se à tribuna e logo em seguida entraram dois criados, cada qual portando duas gaiolas. Em cada uma havia um animal,sendo duas lebres e dois cães. A um sinal previamente estabelecido, um dos criados abriu a porta de uma das gaiolas e a pequena lebre, branca, saiu a correr, espantada. Logo em seguida o outro criado abriu a gaiola em que estava o cão e este saiu em desabalada correria ao encalço da lebre. Alcançou-a com destreza, trucidando-a rapidamente.

A cena foi dantesca e chocou a todos. Uma grande admiração tomou conta da assembléia e os corações pareciam saltar do peito. Ninguém conseguia entender o que Licurgo desejava com tal agressão. Mesmo assim, ele nada falou. Tornou a repetir o sinal convencionado e a outra lebre foi libertada. A seguir, o outro cão.

O povo mal continha a respiração. Alguns, mais sensíveis, levaram as mãos aos olhos para não ver a reprise da morte bárbara do indefeso animalzinho que corria e saltava pelo palco. No primeiro instante, o cão investiu contra a lebre. Contudo, em vez de abocanhá-la, bateu-lhe com a pata e ela caiu. Logo a lebre ergueu-se e se pôs a brincar com o cão. Para surpresa de todos, os dois ficaram a demonstrar tranqüila convivência, saltitando de um lado a outro do palco.

Então, e somente então, Licurgo falou: - Senhores, acabais de assistir a uma demonstração do que pode a educação. Ambas as lebres são filhas da mesma matriz, foram alimentadas igualmente e receberam os mesmos cuidados. Assim, igualmente, os cães. A diferença entre os primeiros e os segundos é, simplesmente, a educação.

E prosseguiu vivamente o seu discurso, dizendo das excelências do processo educativo: - A educação, baseada numa concepção exata da vida, transformaria a face do mundo. Eduquemos nossos filhos, esclareçamos sua inteligência, mas, antes de tudo, falemos aos seus corações, ensinemos a eles a despojarem-se das suas imperfeições. Lembremo-nos de que a sabedoria por excelência consiste em nos tornarmos melhores.

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Licurgo foi um legislador grego que deve ter vivido no séc. quarto antes de Cristo.

O verbo educar é originário do latim "educare" (ou "educcere"), e quer dizer "extrair", "sacar fora".

Percebe-se, portanto, que a educação não se constitui em mero estabelecimento de informações, mas sim de se trabalhar as potencialidades interiores do ser, a fim de que floresçam.


Roberto de Albuquerque Cezar




[Texto enviado pela Profª. Francione Brito]