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sábado, 1 de setembro de 2012

Trabalhador pega comida do lixo e vai parar na cadeia


A realidade pode ser mais dura do que a ficção. No Centro de Pesquisa da Petrobrás (Cenpes), três trabalhadores de uma empresa que presta serviços à estatal foram retirados em camburão do trabalho e processados criminalmente. Um deles, Cláudio Charles Gonçalves, de 33 anos, está desde terça- feira (28), preso na 54º DP, em Belford Roxo. Na quarta-feira (29) foi transferido para o presídio de Bangu. O crime cometido? Tentou levar para casa um frango jogado no lixo. Eles trabalham para a firma Ultraserve, contratada pela Petrobrás e responsável por servir as refeições no restaurante do Cenpes.

A retirada dos três rapazes do seu local de trabalho em camburão, diante de todos os colegas, aconteceu no dia 19 de julho. Diogo Cardoso, 27, também processado, é um jovem magro, de olhar assustado. Ele relatou que uma de suas funções na Ultraserve é recolher os sacos de lixo para descarte. Disse que as normas da Anvisa são muito rigorosas e os frangos, depois de descongelados, quando não aproveitados na refeição, são sempre descartados, “pois não poderiam ser congelados novamente”.

Assim, teria achado um desperdício aquele descarte. Com o produto já no lixo – dois ou três frangos – achou que não haveria problema em dividir aqueles restos de comida com um amigo. Foi o que fez, dividindo o descarte com Cláudio Charles, que no momento está preso. Segundo a sua esposa, ele está muito abalado emocionalmente, “por causa da vergonha a que está sendo submetido”.

O amigo Diogo – ambos são vizinhos na localidade de Nova Aurora, em Belfort Roxo – só não foi para a cadeia esta semana, porque não estava em casa quando a polícia chegou, a mando da Ultraserve, com ordem de prisão preventiva. O que não impediu sua esposa de passar por momentos de tensão, quando a polícia adentrou pela sua casa. Aos 27 anos de idade, Diogo já tem três filhos, um deles com necessidades especiais.

O terceiro trabalhador processado criminalmente pela Ultraserve é Marcos Paulo, de 24 anos, residente numa comunidade em Caxias. Ele trabalhava em outro restaurante do Cenpes, quando foi detido. Seu crime foi tentar levar para casa, achando que dava para aproveitar, “algumas barrinhas de chocolate quebradas e amassadas e um pouco de iogurte fora da validade”.

Se hoje Marcos Paulo não está detido em Bangu, preso preventivamente como se fosse um perigoso fora da lei, é porque não estava em casa, no momento em que a polícia chegou à casa de seus pais com a ordem de prisão.

O Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro (Sindipetro-RJ) denunciou há cerca de um mês, em editorial publicado no jornal Surgente, o absurdo daqueles processos criminais. Na ocasião, o sindicato já exigia providências da Petrobrás contra o que considerou um abuso de autoridade e desrespeito aos trabalhadores.

Mas, na terça (28), recebe uma notícia ainda mais inusitada: é decretada a “prisão preventiva” dos trabalhadores, a pedido da Ultraserve. Em apoio às vítimas dessa arbitrariedade, o sindicato indicou um advogado para acompanhar o caso. O mais ilógico é que as leis em vigor jamais condenariam à prisão três trabalhadores de ficha limpa, por tentar levar para casa ninharias destinadas ao lixo. A prisão preventiva deveria estar reservada a bandidos perigosos que ameaçam a sociedade.

Na manhã desta quarta (29), os trabalhadores da Ultraserve fizeram uma paralisação no Cenpes, em solidariedade aos colegas injustados. Representantes do Sindipetro-RJ se reuniram com a gerência de Recursos Humanos (RH) do Cenpes e aguardam providências. O advogado que vai defender os trabalhadores dará entrevista à TV Petroleira, ao vivo, na próxima segunda-feira, 3 de setembro, às 19 horas) – o endereço eletrônico é tvpetroleira.tv

 Atualização: Segundo informações do membro do Sindpetro-RJ,  Moreno,  a prisão de Claudio foi revogada, mas ainda não há previsão de quando o companheiro será solto. Além disso, segundo informação de Moreno, os outros dois companheiros, Diogo e Paulo conseguiram relaxamento da pena e estão em liberdade.

Com informações da Agência Petroleira de Notícias

A Justiça faz a sua parte; o eleitor deve fazer a triagem.


Ótimo texto do jornalista César Santos, sobre a Lei do Ficha Limpa, e claro, sobre os "Fichas Sujas" e o uso de seus familiares.

Vale a pena ler!


A Justiça faz a sua parte; o eleitor deve fazer a triagem.

Lembra-se de Severino Cavalcanti, aquele presidente da Câmara dos Deputados que renunciou o mandato com o objetivo de escapar da cassação?

Severino saiu do baixo clero para ser eleito presidente e, com a mesma velocidade, rebaixado ao degrau menor, quando foi flagrado recebendo propina de um empresário para estender a concessão do restaurante da Casa, em um escândalo que ficou conhecido como “mensalinho”.

O caso ocorreu em 2005, pouquinho depois do estouro do “mensalão”. Ganhou as manchetes em todo o país, até o ponto de Severino renunciar o mandato. Em seguida, o pernambucano foi deixado de lado pela mídia nacional, mas não abriu mão de fazer política. Voltou para Pernambuco, onde havia preservado base eleitoral. Em 2008, foi eleito prefeito de João Alfredo, cidadezinha a 110km de Recife. Lá, ele mantém liderança.

Agora, Severino volta ao noticiário nacional, puxado pela Lei da Ficha Limpa. Ele foi impedido de disputar a reeleição pela Justiça de primeira instância e teve o indeferimento do registro de candidatura reafirmado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-PE). Persistente, o cabeça-dura avisou que vai recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mesmo consciente que dificilmente alcançará êxito.

Ele é um ficha suja e ficha suja está barrado. A Justiça Eleitoral fechou questão.

O caso do famoso Severino Cavalcanti se repete país a fora; muda apenas os personagens. No Rio Grande do Norte, não é diferente. A Lei da Ficha Limpa garimpou figuras tradicionais da política que se consideravam intocáveis, malfeitores do bem público.

Os ex-prefeitos Nilton Figueiredo, de Pau dos Ferros; Mozaniel Melo, de Guamaré; Bebeto Almeida, de Campo Grande; Clemanceau Alves, de Angicos; entre outros não menos “famosos”, representam uma geração que não deve voltar à vida pública. Eles não fizeram bem, à medida que se utilizaram da máquina em proveito próprio, conforme consta nos processos em que eles foram julgados e condenados.

Infelizmente, os chamados “fichas sujas” ainda conseguem sobrevida, usando parentes ou correligionários de confiança. Eles lançaram candidatos as esposas, filhos, primos, cunhados e pessoas próximas. Serão os prefeitos se seus representantes forem eleitos. Isso não é bom.

Porém, com a firmeza que a Justiça Eleitoral estabelece a ficha limpa como parâmetro indispensável para o registro de candidatura, é possível afirmar que as eleições deste ano já são um divisor de água na luta pela moralização da política e da vida pública, e o eleitor tem a obrigação de fazer a triagem.